Terapia Breve Focada em Soluções surge como alternativa para ampliar atendimento psicológico universitário
Estudo realizado na UNAM-FES Zaragoza, no México, aponta resultados positivos com intervenções concentradas principalmente entre duas e cinco sessões
A crescente demanda por atendimento psicológico entre estudantes universitários tem colocado a saúde mental no centro das discussões acadêmicas e das políticas de educação superior. Nesse cenário, um estudo realizado na Faculdade de Estudos Superiores Zaragoza da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM-FES Zaragoza) avaliou a Terapia Breve Focada em Soluções (TBFS) como alternativa para ampliar o atendimento psicológico oferecido à população universitária.
O trabalho foi desenvolvido por Jazmín Roldán Hernández e Lidia Beltrán Ruiz, da UNAM-FES Zaragoza, e analisou a aplicação da abordagem em estudantes atendidos por um programa institucional de aconselhamento psicológico.
A pesquisa combinou métodos quantitativos e qualitativos. Na etapa quantitativa, foram considerados 155 casos atendidos com a Terapia Breve Focada em Soluções. Já a análise qualitativa examinou as respostas de 100 estudantes que concluíram o processo terapêutico e responderam ao questionário de avaliação.
Os resultados indicaram que a abordagem pode apresentar uma alternativa breve e potencialmente eficiente para contextos universitários marcados por elevada procura por atendimento.
Demanda por atendimento supera capacidade institucional
Um dos dados que mais chama atenção no estudo é a diferença entre a procura por atendimento psicológico e a capacidade disponível.
Durante o período analisado, foram registradas 1.072 solicitações de atendimento psicológico. Desse total, 476 casos, equivalentes a 44,4%, foram atendidos, enquanto 596, ou 55,6%, não chegaram a ser atendidos.
Segundo os autores, o resultado evidencia uma lacuna significativa entre a demanda dos estudantes e a capacidade operacional do serviço, limitada principalmente pelo número de profissionais disponíveis.
Entre os estudantes atendidos, 155 receberam intervenção baseada na Terapia Breve Focada em Soluções, representando 32,6% dos 476 casos atendidos.
Abordagem prioriza recursos e possibilidades
Desenvolvida por Steve de Shazer e Insoo Kim Berg na década de 1980, a Terapia Breve Focada em Soluções parte de uma perspectiva diferente de modelos psicológicos centrados predominantemente no diagnóstico e na identificação de déficits.
Em vez de concentrar a intervenção exclusivamente no problema, a abordagem procura identificar recursos, competências, exceções ao problema e possibilidades de mudança já presentes na vida do paciente.
Nesse modelo, o profissional assume uma posição colaborativa. O estudante participa ativamente da construção dos objetivos e das soluções, enquanto o terapeuta auxilia na identificação e ampliação dos recursos que podem favorecer mudanças.
Entre os princípios apresentados pelo estudo estão a valorização da saúde e dos recursos pessoais, a adaptação à realidade e à linguagem do cliente, a cooperação entre terapeuta e paciente, a atenção ao presente e ao futuro e a compreensão de que pequenas mudanças podem produzir efeitos relevantes.
A abordagem também utiliza estratégias específicas, como perguntas sobre exceções ao problema, escalas, perguntas sobre mudanças ocorridas antes das sessões e a chamada “pergunta do milagre”, além de técnicas desenvolvidas posteriormente por pesquisadores e terapeutas da área.
Maioria alcançou alta terapêutica entre duas e cinco sessões
Entre os 155 estudantes atendidos pela abordagem, 100 tiveram alta terapêutica, correspondendo a 64,5% do grupo. Outros 55 estudantes, ou 35,5%, interromperam voluntariamente o processo.
A análise dos 100 casos que concluíram o tratamento mostrou uma concentração expressiva das intervenções em poucos encontros.
Segundo os dados apresentados, 75% dos estudantes alcançaram seus objetivos terapêuticos entre a segunda e a quinta sessão. O maior percentual ocorreu na terceira sessão, com 24% dos casos, seguido pela segunda sessão, com 19%, e pela quarta e quinta sessões, com 16% cada.
O número total de sessões variou de uma a dez.
Ansiedade e problemas emocionais estão entre principais motivos
Os estudantes atendidos apresentaram diferentes motivos para procurar acompanhamento psicológico.
Entre os 100 casos analisados após alta terapêutica, os principais registros foram problemas emocionais, com 23 casos; ansiedade, com 16; problemas familiares, com 14; e problemas de relacionamento, com 12.
Também apareceram questões relacionadas à autoestima, luto, depressão, estresse, ideação suicida, desempenho acadêmico, relacionamentos sociais e tristeza.
A diversidade dos motivos, segundo os pesquisadores, demonstra a possibilidade de utilização da abordagem em diferentes situações vivenciadas pela população universitária.
Avaliação positiva do atendimento
A percepção dos próprios estudantes também apresentou resultados favoráveis.
Entre os 100 participantes que responderam ao questionário de avaliação, 93% classificaram o atendimento psicológico como excelente e 7% como bom. Nenhum participante avaliou o serviço como regular ou ruim.
Quando questionados sobre a resolução do motivo que os levou a procurar atendimento, 92% afirmaram que a questão havia sido resolvida, enquanto 8% consideraram que havia sido parcialmente resolvida.
Nenhum participante indicou que a situação permanecia sem resolução ou havia piorado.
Outro resultado relevante foi a percepção sobre a duração do acompanhamento. 98% dos estudantes consideraram suficiente o número de sessões realizadas, enquanto 2% avaliaram o período como insuficiente.
Mudanças aparecem nos relatos dos estudantes
Além dos números, os pesquisadores analisaram as narrativas apresentadas pelos estudantes ao final do processo.
Foram identificadas oito categorias relacionadas aos princípios da Terapia Breve Focada em Soluções: reconhecimento de recursos, percepção de mudança, validação e normalização das próprias ações, identificação de recursos pessoais, comparação entre passado e presente, percepção de melhora ou progresso, efeitos das mudanças em outras áreas da vida e cooperação no processo terapêutico.
A categoria mais frequente foi a identificação e explicação dos próprios recursos, registrada 48 vezes nas respostas analisadas.
Em seguida apareceram o uso de termos gerais para reconhecer recursos e a utilização do conceito de mudança, ambos com 30 ocorrências. A comparação entre passado e presente apareceu 22 vezes, enquanto a cooperação com o processo terapêutico foi identificada em 19 respostas.
Os pesquisadores observaram ainda que 84 das 100 respostas analisadas apresentavam uma ou duas categorias simultaneamente, enquanto 13 reuniam três categorias, duas apresentavam quatro e uma resposta reunia cinco categorias.
Relatos indicam percepção de maior autonomia
Os exemplos qualitativos apresentados no estudo mostram estudantes descrevendo mudanças na maneira de compreender suas próprias experiências.
Em um dos casos, uma estudante que procurou atendimento por ansiedade relatou inicialmente que costumava pensar excessivamente em situações negativas, o que a deixava triste. Após três sessões, descreveu uma mudança na percepção da tristeza e afirmou ter aprendido a reconhecer os próprios sentimentos sem deixar de exercer controle sobre suas respostas.
Em outro caso, relacionado ao luto, uma estudante relatou inicialmente que a nostalgia dificultava a realização de suas atividades diárias. Depois de três sessões, afirmou ter passado a compreender melhor a situação e desenvolvido ferramentas para lidar com momentos de melancolia e situações difíceis.
Para os autores, esses relatos demonstram como a intervenção pode deslocar a narrativa centrada exclusivamente no problema para uma perspectiva baseada em recursos, autonomia e capacidade de mudança.
Saúde mental universitária é considerada desafio crescente
O estudo também contextualiza os resultados dentro de um cenário internacional de aumento da preocupação com a saúde mental dos universitários.
Os autores citam pesquisas segundo as quais uma parcela expressiva dos transtornos mentais surge antes dos 24 anos, período que frequentemente coincide com a entrada no ensino superior.
Mudanças na rotina, necessidade de maior independência, pressão acadêmica, relações sociais e dificuldades de adaptação podem contribuir para o surgimento ou agravamento de situações de ansiedade, depressão e estresse.
No México, os pesquisadores destacam dados da própria UNAM que apontam crescimento dos relatos de sofrimento emocional entre estudantes ingressantes.
A instituição já mantém iniciativas de apoio psicológico, incluindo programas de atendimento breve, prevenção do suicídio, treinamento de profissionais e o programa ESPORA Psicológica. Entretanto, segundo o estudo, a procura continua superior à capacidade de atendimento.
Proposta é ampliar a cobertura dos serviços
Diante desse cenário, os autores defendem que a Terapia Breve Focada em Soluções pode contribuir para ampliar a capacidade dos serviços psicológicos universitários.
A principal vantagem apontada é a possibilidade de realizar intervenções em um número relativamente reduzido de sessões, mantendo o foco nos objetivos do estudante e nos recursos disponíveis para enfrentar suas dificuldades.
Para os pesquisadores, a abordagem também pode favorecer a autonomia, a identificação das próprias competências e a construção de soluções compatíveis com a realidade de cada pessoa.
O estudo, contudo, não apresenta a TBFS como substituta universal de outras modalidades de atendimento psicológico. A proposta é incorporá-la como uma alternativa dentro de uma estrutura mais ampla de cuidado, especialmente em serviços com elevada demanda.
Formação profissional e avaliação contínua são recomendadas
Na conclusão, os pesquisadores recomendam ampliar a formação de psicólogos e terapeutas na abordagem, garantindo fidelidade aos seus princípios e técnicas.
Também defendem a criação de protocolos institucionais capazes de acompanhar indicadores como cobertura, efetividade e satisfação dos usuários.
Para os autores, a produção de novas evidências locais poderá contribuir para avaliar a sustentabilidade do modelo e seu potencial de utilização em programas de saúde mental nas universidades mexicanas.
O estudo conclui que a integração formal da Terapia Breve Focada em Soluções aos serviços universitários pode representar uma estratégia viável para ampliar o acesso ao atendimento psicológico, especialmente em instituições onde a demanda supera a capacidade instalada.
Autoras: Jazmín Roldán Hernández e Lidia Beltrán Ruiz — UNAM-FES Zaragoza.
DOI: 10.22533/at.ed.51572162617081

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