Durante nove dias, Jales receberá a visita do Brasil. E o Brasil espelhará a presença de Jales. Essa é uma entre tantas perspectivas do 12° Festival Nacional de Teatro de Jales, a ser realizado entre os dias 16 e 24 de outubro em diversas localidades do município no interior paulista, com ingressos gratuitos e organização do Ponto de Cultura Escola Livre de Teatro, Prefeitura de Jales, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo, ECCART (Espaço Cidadania, Cultura e Arte), Programa de Ação Cultural ProAC Editais, Governo do Estado de São Paulo, SNC (Sistema Nacional de Cultura), Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e Ministério da Cultura, com a o apoio do Senac e Apaa Difusão Cultural e a parceria institucional do Sincomercio, Sesc e SESI.
Contando com a curadoria de Carla Marco, do Sesi Rio Preto, Jorge Vermelho, da Companhia Azul Celeste, e Murilo Jesus, do Sesc Rio Preto, o festival terá 27 espetáculos em diferentes linguagens e formatos, sete ações formativas, cinco shows e quatro performances. E terá apresentações do Ceará, Paraíba, Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Distrito Federal, além de peças de diversas regiões do estado de São Paulo.
“Durante nove dias, Jales recebe artistas e grupos de diferentes regiões do país. E não é só o público que ganha com isso. Esses artistas também vêm para cá, conhecem Jales, conhecem o nosso público e acabam levando um pouco dessa experiência daqui para as cidades deles”, avalia Clayton Campos, diretor da escola e organizador do festival, para depois complementar. “Então eu vejo o festival como uma via de mão dupla. A gente traz o Brasil para Jales, mas também faz Jales circular pelo Brasil.”
Ao analisar a importância histórica do Festival Nacional de Teatro para a região, Clayton Campos enaltece a diversidade da programação, comenta sobre as perspectivas futuras e destaca a importância de ocupar diferentes lugares públicos do município. Afinal, o evento utilizará dez espaços de diferentes regiões de Jales.
“Quando a gente coloca um espetáculo numa praça, num bairro, numa escola, acaba chegando a pessoas que talvez nunca tivessem pensado em ir ao Teatro Municipal assistir a uma peça”, afirma o organizador do festival. “A cidade também passa a fazer parte do espetáculo. Uma praça, por exemplo, deixa de ser só uma praça naquele momento. Ela vira espaço de encontro, de convivência, de imaginação. E existe uma questão muito prática nisso: democratizar o acesso.”
Confira, a seguir, a entrevista completa com Clayton Campos sobre a 12ª edição do Festival Nacional de Teatro de Jales.
Olhando para trás, qual a sensação de chegar ao 12º festival? Quais os principais desafios e alegrias dessa jornada?
Chegar ao 12º festival é uma sensação muito boa. E também de responsabilidade. Quando a gente fez o primeiro, lá atrás, não imaginava que ia chegar à 12ª edição, muito menos com o tamanho que o festival tem hoje. Foram muitos desafios. Fazer um festival desse tamanho em Jales não é simples. Envolve muita gente, muita articulação, recurso, produção e, principalmente, muito trabalho. E cada edição traz uma dificuldade diferente. Quando você resolve uma coisa, aparece outra. Mas, olhando para trás, acho que as alegrias são muito maiores. Uma das coisas que mais me deixa feliz é perceber que o festival deixou de ser só um projeto da Escola Livre e passou a fazer parte da vida cultural de Jales. Hoje as pessoas esperam pelo festival, perguntam quando vai acontecer, acompanham a programação. Isso mostra que ele criou uma relação com a cidade.
Também é muito legal ver os artistas chegando de diferentes lugares do Brasil e encontrando o nosso público. E, para mim, é especialmente importante ver nossos alunos convivendo com esses artistas, assistindo aos espetáculos, participando das atividades e percebendo que o teatro que eles fazem aqui está ligado a uma produção muito maior. E tem uma coisa que considero uma conquista enorme: colocar o teatro diante de pessoas que talvez nunca fossem procurar o teatro. Quando a gente coloca um espetáculo numa praça, numa rua, num bairro, e alguém que estava passando para e assiste, acontece uma aproximação muito bonita.
Então, depois de 12 edições, acho que o sentimento maior é de gratidão. Por tudo que a gente construiu, por todas as pessoas que passaram pelo festival e, principalmente, por ainda ter vontade de continuar fazendo. Porque chegar à 12ª edição é importante, mas perceber que a história ainda está sendo construída é mais importante ainda.
Em sua avaliação, qual a importância do festival para Jales e para a região?
Eu acho que a importância do festival para Jales e para a região é muito grande, principalmente porque ele coloca a cidade em contato com uma produção teatral que vem de diferentes lugares do Brasil. Durante nove dias, Jales recebe artistas e grupos de diferentes regiões do país. E não é só o público que ganha com isso. Esses artistas também vêm para cá, conhecem Jales, conhecem o nosso público e acabam levando um pouco dessa experiência daqui para as cidades deles. Acho que isso é muito importante para uma cidade do interior. Muitas vezes parece que, para ter acesso a uma produção cultural de qualidade, você precisa ir para São Paulo ou para uma grande cidade. O festival faz o caminho contrário: ele traz essa produção para Jales. E tem uma outra coisa que, para mim, é muito importante: o festival não é só para quem já frequenta teatro. Quando a gente coloca um espetáculo numa praça, num bairro, numa escola, acaba chegando a pessoas que talvez nunca tivessem pensado em ir ao Teatro Municipal assistir a uma peça. Para os nossos alunos da Escola Livre isso também tem um valor enorme. Eles convivem durante vários dias com artistas de diferentes partes do país, assistem a espetáculos, fazem oficinas, conversam com profissionais. Isso é uma experiência de formação que vai muito além da sala de aula. Então eu vejo o festival como uma via de mão dupla. A gente traz o Brasil para Jales, mas também faz Jales circular pelo Brasil. E acho que, depois de 12 edições, essa é uma das grandes contribuições do festival para a cidade e para a região.
Em sua 12ª edição, o festival trouxe uma programação diversa e premiada, inclusive com nomes reconhecidos nacionalmente. Como se deu a curadoria dessa programação? E, em sua análise, quais os destaques da programação?
A curadoria desta edição foi feita pela Carla Marco, pelo Jorge Vermelho e pelo Murilo Jesus. São pessoas que conhecem muito bem o teatro e a produção contemporânea. E a ideia não era simplesmente pegar espetáculos premiados ou nomes conhecidos. Era construir uma programação que tivesse diversidade e que pudesse colocar diferentes formas de fazer teatro em diálogo. O tema desta edição, Corporalidades do Hoje, veio justamente desse desejo de olhar para o corpo, para as diferentes experiências, para aquilo que cada corpo carrega de memória, identidade, história e presença. Mas a gente também não queria transformar o tema numa camisa de força. Então existem espetáculos que dialogam diretamente com questões raciais, acessibilidade, memória, identidade, questões sociais e políticas, mas também temos humor, música, circo, dança, teatro para crianças e trabalhos mais voltados para a imaginação.
E acho que uma das coisas mais interessantes desta edição é justamente poder colocar artistas de trajetórias muito diferentes no mesmo festival. Temos, por exemplo, o Othon Bastos, com 93 anos e mais de 75 anos de carreira, e temos também grupos mais jovens, com trabalhos muito potentes, que talvez ainda sejam pouco conhecidos pelo público de Jales. Então eu não consigo apontar um único destaque. Para mim, o destaque é essa diversidade. É colocar diferentes gerações, diferentes regiões e diferentes linguagens juntas. Acho que é isso que faz um festival ser realmente um lugar de encontro.
Além das peças encenadas em lugares fechados, como o próprio teatro, o festival ocupará diversas localidades de Jales. Qual a razão dessa escolha de ocupar diferentes lugares públicos e de “descentralizar” a arte?
Porque eu acho que o teatro não pode ficar esperando o público chegar até ele. Quando a gente coloca um espetáculo numa praça, numa escola, num bairro ou em outro espaço da cidade, cria a possibilidade de encontrar pessoas que talvez nunca entrassem no Teatro Municipal. E isso muda muito a relação com o teatro. A cidade também passa a fazer parte do espetáculo. Uma praça, por exemplo, deixa de ser só uma praça naquele momento. Ela vira espaço de encontro, de convivência, de imaginação. E existe uma questão muito prática nisso: democratizar o acesso. Mas também existe uma questão artística. O teatro de rua tem uma relação completamente diferente com o público. Tem gente sentada, gente passando, criança que para pra olhar, alguém que nunca assistiu a uma peça e acaba ficando. É outra experiência. Então, quando a gente fala em descentralizar, não é só levar o espetáculo para outro endereço. É ampliar os lugares onde o teatro pode acontecer e, principalmente, ampliar as possibilidades de as pessoas se reconhecerem como público.
Olhando para frente, o que podemos esperar de novidades para o festival e, sobretudo, a Escola Livre de Teatro?
Eu acho que o principal desafio daqui para frente é não fazer o festival crescer só em tamanho. A gente quer que ele cresça também em qualidade, em formação e na capacidade de transformar as pessoas e a cidade. A Escola Livre já tem 36 anos de história em Jales. O festival nasceu dessa trajetória, mas também acaba apontando novos caminhos para a escola. A gente quer fortalecer cada vez mais essa relação entre a escola e o festival, principalmente na formação dos alunos. O Cena Primeiro Sinal, por exemplo, é uma experiência que aproxima os estudantes de Jales e da região de um festival nacional. A ideia é que quem está começando possa entender que o teatro não termina na sala de aula. Também queremos continuar trazendo artistas e grupos de diferentes regiões do país, ocupar cada vez mais a cidade e, ao mesmo tempo, fortalecer a produção daqui. Porque não faria muito sentido trazer o Brasil inteiro para Jales e não criar espaço para que Jales também mostre o teatro que produz. Então, olhando para os próximos anos, eu espero que a gente consiga continuar fazendo essas duas coisas: trazer o mundo para Jales e levar Jales cada vez mais para o mundo. Acho que esse é um caminho que a escola e o festival já vêm construindo há muitos anos. E, depois de 12 edições, ainda tem muita coisa para fazer.

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