Para Fabiano de Abreu, clube carioca tem potencial esportivo e financeiro, mas vem tomando decisões menos consistentes do que o principal concorrente brasileiro dos últimos anos
A eliminação do Flamengo para o Estudiantes na semifinal da Libertadores voltou a colocar em discussão as decisões recentes do departamento de futebol rubro-negro. Para o neurocientista e consultor Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, o problema não deve ser analisado apenas pelos pênaltis perdidos ou pelo desempenho em uma partida, mas pelo conjunto de escolhas administrativas que antecederam a queda.
O Flamengo empatou por 0 a 0 com o Estudiantes no Maracanã e foi eliminado nas cobranças de pênaltis. A equipe de Leonardo Jardim atuou durante boa parte do segundo tempo com um jogador a mais, teve quase 75% de posse de bola, mas criou apenas duas situações de gol, segundo o próprio treinador.
Na avaliação de Fabiano, o resultado evidencia uma diferença crescente entre Flamengo e Palmeiras na capacidade de manter processos esportivos.
“O Flamengo é um clube de enorme potencial, tem elenco, torcida, receita e capacidade para disputar qualquer título. Mas precisamos ter conscienciosidade para reconhecer quando o nosso maior concorrente está administrando melhor determinados processos. O Palmeiras vem apresentando um repertório mais consistente nos últimos anos”, afirma.
Fabiano de Abreu é Pós-PhD em Neurociências, atua como consultor e pesquisador do comportamento e integra o corpo docente de instituições de ensino superior. Sua análise parte também do conceito de conscienciosidade, traço de personalidade relacionado a organização, disciplina, planejamento, persistência e avaliação das próprias decisões.
Para ele, reconhecer a superioridade momentânea de um concorrente em determinados aspectos não significa diminuir o Flamengo.
“Conscienciosidade também é reconhecer o erro, observar o que o outro está fazendo melhor e reorganizar a estratégia. Se uma instituição não consegue fazer essa leitura, tende a repetir decisões porque protege a própria convicção em vez de analisar o resultado”, explica.
A continuidade de Abel Ferreira
A comparação com o Palmeiras ganhou força porque Abel Ferreira chegou à quarta final de Libertadores em sete edições sob seu comando. O treinador português foi campeão em 2020 e 2021, vice em 2025 e voltou à decisão em 2026.
O Palmeiras também já soma oito finais de Libertadores em sua história, recorde entre os clubes brasileiros.
Para Fabiano, a permanência de Abel permitiu acumular algo que vai além do conhecimento tático.
“Existe repertório. A equipe, a comissão e a própria administração viveram finais, derrotas, cobranças de pênaltis, crises e títulos. Isso produz aprendizagem organizacional. Na neurociência, aprendemos que experiências repetidas permitem ao cérebro construir modelos de resposta mais eficientes. Evidentemente um clube não é um cérebro, mas organizações também acumulam memória de decisões e ajustam comportamentos com a experiência”, afirma.
O próprio Abel revelou, após a classificação sobre o Fluminense, que criou um protocolo específico para disputas de pênaltis depois de sucessivas derrotas nesse tipo de decisão. O Palmeiras avançou nas penalidades contra LDU e Fluminense nesta Libertadores.
Saída de Filipe Luís volta ao debate
Outro ponto criticado por Fabiano é a decisão de demitir Filipe Luís no início da temporada.
O ex-lateral assumiu a equipe principal em setembro de 2024 e conquistou a Copa do Brasil daquele ano, além da Supercopa, Campeonato Carioca, Campeonato Brasileiro e Libertadores em 2025. Foi demitido em março de 2026, poucas horas depois de uma vitória por 8 a 0 sobre o Madureira e da classificação para a final do Estadual.
Leonardo Jardim foi contratado para substituí-lo.
Fabiano considera que a troca precisa ser analisada pelo resultado acumulado, não apenas pelo currículo do treinador português.
“Eu sequer acompanhava Leonardo Jardim antes de ele chegar ao Flamengo. Ele tem trajetória e isso precisa ser respeitado. Mas retirar um treinador que havia construído cinco títulos em pouco tempo, incluindo Brasileiro e Libertadores, exige que o substituto apresente uma evolução clara. Até agora, eu não vejo essa evolução”, diz.
Na semifinal contra o Estudiantes, Jardim reconheceu que o Flamengo teve domínio territorial, mas pouca presença dentro da área. A equipe argentina recuou após ficar com dez jogadores, enquanto o Flamengo encontrou dificuldades para modificar o padrão ofensivo.
Para Fabiano, esse tipo de situação também envolve flexibilidade cognitiva.
“Flexibilidade cognitiva é a capacidade de perceber que o ambiente mudou e alterar a estratégia. Quando o adversário perde um jogador, fecha os espaços e modifica completamente a forma de defender, continuar insistindo durante muito tempo num modelo pouco eficiente significa perder uma oportunidade de adaptação”, afirma.
Ele ressalta que isso não permite diagnosticar qualquer característica psicológica em um treinador. A neurociência, nesse caso, funciona apenas como referência para explicar processos gerais de tomada de decisão e adaptação.
“Praticamente abrimos o caminho”
Com a eliminação do Flamengo, o Palmeiras enfrentará o Estudiantes na final de 28 de novembro, em Montevidéu. A equipe paulista busca o quarto título da competição e Abel Ferreira pode conquistar sua terceira Libertadores.
Fabiano considera o Palmeiras tecnicamente superior ao adversário argentino, embora reconheça que uma final elimina qualquer possibilidade de resultado antecipado.
“Não existe título ganho. O Estudiantes acabou de eliminar o Flamengo e merece respeito. Mas, pela diferença de elenco, estrutura, experiência e repertório acumulado, o Palmeiras entra numa situação muito favorável. Praticamente abrimos o caminho para o nosso maior concorrente”, afirma.
Para o pesquisador, a questão mais importante está no que o Flamengo fará depois da eliminação.
“O clube possui potencial para dominar ciclos no futebol brasileiro e sul-americano, mas potencial sem administração coerente não se converte automaticamente em títulos. A gestão precisa reconhecer o que funcionou, o que foi interrompido e se as decisões tomadas realmente produziram melhoria”, afirma.
Fabiano avalia que o Palmeiras vem apresentando maior estabilidade justamente porque preservou um projeto mesmo depois de derrotas importantes.
“Reconhecer isso incomoda quem é flamenguista, mas é necessário. Não adianta negar aquilo que os últimos anos mostram. Primeiro é preciso reconhecer onde o concorrente está sendo mais consistente. Depois, corrigir os próprios erros e dar a volta por cima”, conclui.

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