Fernando Carvalho Oliveira
A agricultura brasileira está diante de um desafio que combina dois riscos de grande dimensão: a maior instabilidade climática e a vulnerabilidade da cadeia de fertilizantes. A intensificação do El Niño prevista para este segundo semestre de 2026 poderá alterar significativamente os regimes de chuva e temperatura, com impactos distintos entre as regiões produtoras. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) já aponta, por exemplo, possibilidade de temperaturas acima da média e chuvas abaixo do normal em partes do Norte e Nordeste. No Sul, o cenário pode ser inverso, com excesso de precipitações.
Para quem vive da terra, isso significa ser preciso preparar o solo para enfrentar tanto a falta quanto o excesso de água. Afinal, o mesmo fenômeno climático que provoca déficit hídrico em uma região pode causar encharcamento e erosão em outra. O problema torna-se ainda mais complexo porque ocorre em um momento de pressão sobre a oferta e os preços dos fertilizantes. O Brasil importa cerca de 85% do que consome. Nesse cenário, o produtor precisa pensar em eficiência. E uma das respostas está justamente em algo que muitas vezes é tratado apenas como complemento da adubação: a matéria orgânica.
Defendo, como engenheiro agrônomo, que o uso planejado de fertilizantes orgânicos deve ganhar espaço nas estratégias de preparação para eventos climáticos extremos. Não se trata de substituir indiscriminadamente os fertilizantes minerais, mas de integrar fontes orgânicas ao manejo nutricional, de acordo com análise de solo, cultura, disponibilidade de insumos e recomendação técnica.
A razão é simples. Um solo saudável é também um reservatório de água. A matéria orgânica melhora a estrutura e a agregação das partículas, aumenta a infiltração e a capacidade de retenção de água, favorece a atividade dos microrganismos e contribui para a disponibilidade gradual de nutrientes. A Embrapa destaca que a matéria orgânica exerce papel relevante na retenção de água, na estabilidade dos agregados, na capacidade de troca de cátions e na atividade biológica do solo.
Isso faz diferença especialmente quando o clima fica extremo. Em períodos de calor e estiagem, maior retenção de umidade significa uma reserva adicional para as raízes. A matéria orgânica também contribui para reduzir as oscilações de temperatura do solo, diminuindo o estresse sobre o sistema radicular. Em períodos de chuvas intensas, um solo bem estruturado e com maior infiltração é mais capaz de receber a água sem transformá-la imediatamente em enxurrada e erosão.
Há, portanto, uma mudança importante de perspectiva: fertilizante orgânico não deve ser visto somente como fonte de nutrientes. Seu valor está também na capacidade de melhorar o ambiente em que a planta cresce.
Essa estratégia, entretanto, precisa estar associada a outras práticas. A primeira é manter o solo coberto. Palhada, plantas de cobertura e sistemas de plantio direto reduzem a exposição da terra ao sol, diminuem a evaporação, protegem contra o impacto direto das gotas de chuva e ajudam a conservar a estrutura do solo. A Embrapa registra que o sistema de plantio direto favorece maior armazenamento e infiltração de água, menor perda por evaporação e maior estabilidade dos agregados.
A rotação e a diversificação de culturas também são fundamentais. Diferentes espécies exploram distintas profundidades do solo, produzem múltiplos volumes de raízes e resíduos e contribuem para uma estrutura mais equilibrada. Outro ponto é o manejo da água. Onde houver possibilidade, o produtor deve ampliar a capacidade de armazenamento, captar chuva e utilizar sistemas de irrigação mais eficientes, como o gotejamento. Também é importante rever o calendário de plantio com base nas previsões climáticas e no zoneamento agrícola, escolher cultivares mais tolerantes ao calor ou à deficiência hídrica.
Com crédito mais caro, o produtor tem menos margem para erro e precisa que cada gota de água e cada real investido rendam o máximo. O produtor não pode buscar atalhos. O uso de estercos crus e não estabilizados pode desencadear o chamado efeito priming positivo, quando a matéria orgânica fresca e de rápida decomposição acelera o consumo da matéria orgânica nativa do solo pelos microrganismos, em vez de somar reservas. A verdadeira resiliência climática exige tecnologia: fertilizantes obtidos por compostagem termofílica que garantam liberação lenta, ampliação da CTC e alta concentração de substâncias húmicas. A ciência atesta a superioridade desse manejo. No Cerrado, a adoção do fertilizante orgânico associado ao mineral aumentou a produtividade da soja em 10,8% e do milho em 6,8%. Na fruticultura, a aplicação de 4 kg/planta no Vale do Ribeira ampliou a produção de banana em 10%, enquanto a macadâmia registrou saltos de 29% na produtividade (ensaios em parceria com a UNESP e APTA). No tomateiro, a ESALQ, através da Profa Dra Simone da Costa Mello, comprovou máxima produtividade com redução de acidez e melhor equilíbrio de sólidos solúveis dos frutos. El Niño passa, mas o solo, e o patrimônio de quem investe na tecnologia certa, fica.
*Fernando Carvalho Oliveira é doutor em Agronomia, com ênfase em Solos e Nutrição de Plantas, pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP). Especialista no tratamento de resíduos orgânicos e economia circular, é membro do Conselho Deliberativo da ABISOLO - Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia para Produção Vegetal e atua como responsável técnico pelos fertilizantes orgânicos compostos da Tera Nutrição Vegetal.

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