Dia das crianças: como ensinar cidadania desde cedo e formar cidadãos mais conscientes em tempos de eleições?

 

por José Luiz Souza de Moraes


Em ano eleitoral, ensinar crianças a reconhecer direitos, respeitar diferenças e entender o papel do Estado ajuda a formar cidadãos mais conscientes
 

O que uma criança precisa saber sobre cidadania antes mesmo de ter idade para votar? Em um ano de eleições, a pergunta ganha relevância diante da quantidade de informações, opiniões e conteúdos políticos aos quais crianças e adolescentes são expostos, principalmente nas redes sociais.
 

De acordo com o último Censo Demográfico do IBGE, as crianças com até 14 anos representam 19,8% da população total do Brasil. Dessa forma, a educação para a cidadania deve começar muito antes do título de eleitor e pode ser construída a partir de situações simples do cotidiano.
 

“Não precisamos falar de eleição com uma criança pequena como se estivéssemos falando com um adulto. O primeiro passo é ensiná-la que ela tem direitos, que outras pessoas também têm e que a convivência em sociedade exige respeito, diálogo e responsabilidade. Quando uma criança entende, por exemplo, que tem direito à educação e que o colega também tem, ela começa a compreender uma ideia fundamental de cidadania: os direitos não existem apenas para nós”, afirma José Luiz Souza de Moraes, presidente da Associação dos Procuradores do Estado de São Paulo (APESP) e especialista em Direito do Estado.
 

Na prática, alguns conceitos podem ser trabalhados por meio de situações que fazem parte da rotina das crianças:
 

1. Ensinar os próprios direitos a partir de situações do cotidiano

A criança pode começar a compreender seus direitos quando os adultos explicam, de maneira adequada à idade, por que ela tem direito à escola, à saúde, à alimentação, à proteção e ao respeito. Também é importante mostrar que esses direitos não dependem de comportamento ou condição social. “Uma criança não precisa conhecer o texto da Constituição para entender o que significa ter direitos. Quando ela aprende que ninguém pode agredi-la, humilhá-la ou impedir seu acesso à escola, por exemplo, está começando a reconhecer a própria dignidade e a entender que existem mecanismos de proteção”, explica o especialista.
 

2. Mostrar que respeitar o outro também faz parte da cidadania

Brigas entre irmãos, conflitos no recreio ou disputas podem ser oportunidades para ensinar que o direito de uma pessoa termina onde começa o direito da outra. “É possível ensinar cidadania em uma discussão por causa de um brinquedo. A criança precisa entender que ter um direito não significa poder fazer qualquer coisa. Conviver em sociedade exige reconhecer que o outro também tem direitos e precisa ser respeitado”, afirma.
 

3. Explicar as regras, em vez de apenas exigir que sejam cumpridas

Para o presidente, crianças tendem a compreender melhor as regras quando sabem por que elas existem. Isso vale tanto para normas familiares quanto para aquelas que organizam a vida em sociedade. “Quando simplesmente dizemos ‘porque eu mandei’, perdemos uma oportunidade educativa. É mais interessante explicar que determinadas regras existem para proteger as pessoas, organizar a convivência e garantir que todos sejam tratados de maneira semelhante. Esse raciocínio ajuda a criança a entender, no futuro, por que uma sociedade precisa de leis”, diz Moraes.
 

4. Apresentar o Estado a partir dos serviços que a criança já conhece

O funcionamento do Estado pode parecer abstrato para uma criança, mas está presente em situações muito concretas: na escola, no posto de saúde, no transporte público, na iluminação das ruas ou na coleta de lixo. A família e a escola podem aproveitar essas experiências para explicar, de maneira simples, que existem instituições responsáveis por oferecer e organizar esses serviços. “O Estado não deve ser apresentado como uma coisa distante. Quando uma criança pergunta quem construiu uma escola ou por que existe um posto de saúde, temos uma oportunidade de explicar que existem governos, instituições e recursos públicos envolvidos nessas decisões”.
 

5. Ensinar a diferença entre opinião, informação e fato

Em um ambiente digital no qual crianças e adolescentes têm contato cada vez mais cedo com vídeos, comentários e conteúdos produzidos por terceiros, desenvolver o senso crítico também é uma forma de educação para a cidadania. “Mais do que dizer para a criança o que ela deve pensar, precisamos ensiná-la a perguntar de onde veio aquela informação, quem está dizendo, se existem outras versões e se aquilo pode ser confirmado. Essa postura será fundamental para que ela se torne um adulto capaz de participar da sociedade de maneira consciente”, explica o presidente da APESP.
 

6. Estimular a participação em pequenas decisões

A cidadania também pode ser exercitada quando a criança participa de decisões compatíveis com sua idade, como escolher coletivamente uma atividade, definir regras de uma brincadeira ou discutir como cuidar de um espaço comum. Para o presidente, essas experiências ajudam a apresentar conceitos que estarão presentes na vida adulta. “Participar não significa que a criança terá sempre a decisão que queria. É importante mostrar que ouvir diferentes opiniões, argumentar, votar quando for o caso e aceitar uma decisão coletiva também fazem parte da vida em sociedade”, afirma.
 

A escola e a família, portanto, têm papéis complementares nesse processo. Enquanto a convivência familiar pode oferecer as primeiras experiências de respeito, responsabilidade e resolução de conflitos, a escola amplia esse aprendizado ao apresentar diferentes realidades, perspectivas e o funcionamento das instituições. Em um ano eleitoral, essa formação ganha uma dimensão ainda mais importante, especialmente diante da exposição precoce ao debate político nas redes sociais.
 

“Educar para a cidadania é necessário que se tenha pertencimento dos serviços e das públicas. Não é dizer à criança em quem ela deve votar quando crescer, nem apresentar uma visão política como verdade absoluta. É dar instrumentos para que ela reconheça seus direitos, respeite os direitos dos outros, compreenda como o Estado funciona e tenha condições de formar a própria opinião. Uma sociedade democrática precisa de cidadãos que saibam não apenas escolher, mas também questionar, dialogar e participar”, conclui Moraes.



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