Dia da Reforma Protestante: reflexões e aprendizado em vista da unidade da Igreja



* Lino Rampazzo 

 

O dia 31 de outubro recorda o início simbólico da Reforma Protestante, movimento associado a Martinho Lutero, que, em 1517, levantou questionamentos sobre práticas e ensinamentos da Igreja de seu tempo, especialmente em relação aos temas da fé, da Escritura, do perdão dos pecados, das indulgências e da autoridade eclesiástica. Esse acontecimento marcou profundamente a história do cristianismo e contribuiu para a divisão da Igreja ocidental. Mais do que recordar um episódio histórico, esta data constitui uma oportunidade para refletir sobre as feridas da divisão entre os cristãos e renovar o compromisso com a unidade desejada por Jesus Cristo.

 

Na oração sacerdotal, Jesus dirige ao Pai um pedido que permanece atual: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17,21). A unidade não é, portanto, uma simples conveniência institucional, mas corresponde à vontade de Cristo para seus discípulos e constitui um testemunho diante do mundo. As divisões entre os cristãos enfraquecem a credibilidade do anúncio do Evangelho e tornam ainda mais urgente o empenho pela reconciliação.

 

A Reforma Protestante também nos convida a reconhecer a necessidade permanente de conversão e renovação na vida eclesial. A Igreja, formada por seres humanos, necessita examinar continuamente sua fidelidade ao Evangelho, superar abusos e testemunhar com coerência a misericórdia de Deus. Ao mesmo tempo, é necessário compreender o contexto histórico e teológico das controvérsias, evitando julgamentos simplistas e atitudes de hostilidade. Conhecer a história permite reconhecer responsabilidades, compreender divergências e aprender com os acontecimentos do passado.

 

O Concílio Vaticano II, por meio do decreto Unitatis redintegratio (Restauração da Unidade), reconheceu a importância do movimento ecumênico e incentivou os católicos a participar dele com prudência, caridade e fidelidade à verdade. O documento reconhece que os cristãos de outras comunidades possuem elementos de santificação e de verdade, dons que procedem de Cristo e conduzem à unidade católica. Por isso, o diálogo ecumênico não exige o abandono das próprias convicções, mas convida a apresentá-las com respeito, humildade e disposição para escutar o outro.

 

Entre católicos e protestantes existem diferenças doutrinais importantes, relativas, por exemplo, à autoridade da Igreja, à interpretação da Escritura, aos sacramentos e à compreensão da justificação. Reconhecê-las com honestidade é condição para um diálogo sério. Entretanto, há também um patrimônio cristão compartilhado: a fé em Jesus Cristo, a leitura das Sagradas Escrituras, o Batismo, a oração e o compromisso com a caridade, ainda que compreendidos de maneiras distintas em alguns aspectos. Esses elementos constituem pontos de partida para a aproximação fraterna.

 
Memorar o Dia da Reforma Protestante, sob a perspectiva da unidade, significa transformar a memória das divisões em ocasião de aprendizado. Isso exige abandonar preconceitos, evitar ofensas, promover o conhecimento recíproco e colaborar na defesa da dignidade humana, da justiça, da paz e da vida. A oração comum, quando possível e conforme as orientações ecumênicas da Igreja, também pode fortalecer os vínculos de fraternidade.

 

A unidade dos cristãos é um dom de Deus e, simultaneamente, uma tarefa que exige conversão, diálogo e perseverança. Como ensina São Paulo, há “um só Senhor, uma só fé, um só Batismo” (Ef 4,5). Que a recordação da Reforma nos ajude a superar antagonismos, aprofundar a fidelidade a Cristo e testemunhar, com palavras e obras, que o amor de Deus é maior do que nossas divisões. Assim, o desejo de Jesus — “que todos sejam um” — continuará a orientar o caminho ecumênico rumo à unidade visível de todos os seus discípulos.

 

* Lino Rampazzo é Doutor em Teologia e professor nos Cursos de Filosofia e Teologia da Faculdade Canção Nova, em Cachoeira Paulista (SP).



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