No Brasil, apenas 4% dos transplantes renais são em pacientes pediátricos


Mais de 90% das pessoas que aguardam por um transplante no país esperam por um rim. Em 2025, 315 pacientes pediátricos foram transplantados
 



Foto: Marieli Prestes/Hospital Pequeno Príncipe

 Mais de 49 mil brasileiros aguardam por um transplante de órgão no país, segundo o painel de dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), do Ministério da Saúde. Mais de 90% dessa fila é formada por pessoas que esperam por um rim. Ainda de acordo com o painel, em 2025, foram realizados 6.706 transplantes renais no Brasil, dos quais apenas 4,6% em crianças e adolescentes.
 

Os números evidenciam o desafio da disponibilidade de órgãos para quem depende de um transplante. A recusa familiar continua sendo um dos principais obstáculos para ampliar a doação: em cerca de 45% dos casos, a família da pessoa falecida não autoriza o procedimento. Por isso, neste Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos, o Hospital Pequeno Príncipe, maior e mais completo hospital pediátrico do país, reforça a importância desse gesto que salva vidas.
 

“Temos muito mais pessoas esperando por um órgão compatível do que doadores. Então, quanto mais famílias e mais pessoas estiverem conscientizadas da importância da doação, mais vidas serão salvas”, destaca Karin Schultz, cirurgiã pediátrica do Serviço de Transplante Renal do Hospital Pequeno Príncipe.
 

Crianças também precisam de novos rins

A doença renal crônica é caracterizada por uma alteração persistente da função dos rins por mais de três meses. O tratamento depende do estágio da doença e pode envolver medicamentos, acompanhamento com nefrologista pediátrico e orientação nutricional. Quando os rins funcionam com menos de 10% a 15% de sua capacidade, pode ser necessário recorrer à diálise peritoneal, à hemodiálise ou ao transplante renal.
 

Embora o transplante renal seja mais frequente entre adultos, crianças também podem desenvolver doenças renais graves e precisar de um novo rim. Na infância, as causas da doença renal crônica são diferentes das mais comuns na população adulta. “A maioria das crianças, diferente dos adultos, tem anormalidades congênitas dos rins e do trato urinário, como malformações anatômicas, displasia renal, obstruções urinárias, refluxo, glomerulopatias ou outras doenças do rim”, explica a nefrologista pediátrica Mariana Cunha, do Hospital Pequeno Príncipe.
 

Muitas dessas doenças não são preveníveis, mas o cuidado especializado desde o diagnóstico é fundamental. “O acompanhamento adequado retarda a progressão das doenças e também melhora o desenvolvimento dos pacientes, além de tratar anemias, ajustar a alimentação e melhorar a qualidade dos ossos, pois os rins fazem parte do metabolismo do cálcio e do fósforo. Quando estão com alterações nas funções, também podem impactar outras condições, como raquitismo e deformidades”, completa a especialista.
 

Para uma criança, a doença renal avançada pode significar uma rotina muito diferente daquela vivida por outras crianças da mesma idade. A hemodiálise pode exigir de três a cinco sessões por semana, com duração variável de horas, além de cuidados com alimentação e ingestão de líquidos. Dependendo do tipo de tratamento, atividades como entrar em piscinas ou no mar também podem ficar restritas.
 

Um novo rim, uma nova infância

Um doador de órgãos pode salvar até oito vidas, segundo o Ministério da Saúde. Nos casos de falência renal, o transplante é considerado a mais completa alternativa de substituição da função dos rins. O novo órgão passa a exercer funções como filtrar o sangue e eliminar o excesso de líquidos e toxinas do organismo.
 

O transplante renal pode acontecer com doador vivo ou falecido. Em ambos os casos, é realizada uma avaliação criteriosa da viabilidade da doação. No caso de doadores falecidos, a demora é variável e imprevisível. A lista considera critérios como tempo de espera, tempo de diálise ou hemodiálise e compatibilidade. No transplante pediátrico, há ainda uma particularidade relacionada ao tamanho do órgão.
 

“Especialmente se estamos falando de uma criança muito pequenininha, a gente não consegue colocar um órgão de um doador adulto muito grande. Então, temos essa limitação quando falamos de transplante pediátrico”, ressalta Karin.
 

Após o transplante, o paciente precisa fazer uso contínuo de medicamentos para evitar a rejeição do órgão e manter acompanhamento periódico com a equipe de especialistas. Em contrapartida, a cirurgia pode representar uma mudança significativa na rotina e no desenvolvimento da criança.
 

“Depois de passar pelo transplante, o paciente tem uma grande melhora na qualidade de vida, na disposição e no crescimento. Além disso, a criança também tem menos restrições e pode retornar à escola todos os dias, o que impacta na melhora do desempenho escolar e na socialização”, enfatiza Mariana Cunha.
 

Referência

Há 37 anos, o Pequeno Príncipe realiza transplante de órgãos e tecidos pediátricos. Em 2025, foram feitos 308 procedimentos: 44 de órgãos sólidos (coração, rim e fígado), 34 de válvula cardíaca, 163 de tecido ósseo e 67 de medula óssea. Até julho de 2026, o Pequeno Príncipe já realizou 194 transplantes, consolidando a instituição como um dos centros de referência para esse tipo de procedimento no país.
 

Sobre o Pequeno Príncipe

Com sede em Curitiba (PR), o Hospital Pequeno Príncipe é o maior e mais completo hospital pediátrico do Brasil. Há mais de cem anos, a instituição filantrópica e sem fins lucrativos oferece assistência hospitalar humanizada e de alta qualidade a crianças e adolescentes de todo o país. Referência nacional em tratamentos de média e alta complexidade, realiza transplantes de rim, fígado, coração, ossos e medula óssea, além de atuar em 47 especialidades e áreas de assistência em pediatria, com equipes multiprofissionais.

Com 369 leitos, sendo 76 de UTI, o Hospital promove 76% dos atendimentos via Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2025, realizou 258 mil atendimentos ambulatoriais, 20 mil procedimentos cirúrgicos e 308 transplantes. Reconhecido como hospital de ensino desde a década de 1970, já formou mais de dois mil especialistas em diferentes áreas da pediatria.

Junto com a Faculdades Pequeno Príncipe e com o Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, compõe o Complexo Pequeno Príncipe. Essa atuação em assistência, ensino e pesquisa — conforme o conceito Children’s Hospital, adotado por grandes centros pediátricos do mundo — tem transformado milhares de vidas anualmente, garantindo-lhe reconhecimento internacional.

Em 2025, o Pequeno Príncipe foi listado como um dos 70 melhores hospitais do mundo que atuam com pediatria (ou que atendem crianças) no ranking elaborado pela revista norte-americana Newsweek, o que o colocou, pelo quinto ano consecutivo, como o melhor hospital exclusivamente pediátrico da América Latina. Também é reconhecido como Hospital de Excelência pelo Ministério da Saúde por meio de certificação concedida a instituições que cumprem critérios técnicos rigorosos na assistência.

Desde 2019, o Pequeno Príncipe é participante do Pacto Global e contribui para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), iniciativa proposta pela Organização das Nações Unidas.

Comentários