Pe. Dr. Telmo José Amaral de Figueiredo
Biblista e assessor eclesiástico da Comissão Bíblica Diocesana de
Jales
O Mês da Bíblia 2026 celebra os seus 55 anos de existência na
Igreja do Brasil com uma proposta inédita: o estudo e a reflexão sobre o Livro
de Daniel. O lema escolhido para guiar as comunidades ao longo de setembro é
“Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). A proposta, organizada pela CNBB
(Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), convida os fiéis a mergulharem em
uma das obras mais fascinantes das Escrituras, que mistura narrativas de
coragem com visões proféticas e apocalípticas.
O Livro de Daniel é uma das obras mais fascinantes e complexas das
Sagradas Escrituras. Embora a narrativa se situe no período do exílio
babilônico (século VI a.C.), a pesquisa bíblica contemporânea indica que sua
redação final ocorreu no século II a.C., especificamente entre 168 e 164 a.C.
Trata-se de uma obra atribuída a um sábio lendário do passado para transmitir
uma mensagem urgente ao presente. O objetivo central era oferecer esperança e
resistência aos judeus que sofriam a perseguição de Antíoco IV Epífanes, que
tentava impor a cultura grega e proibir a fé no Deus de Abraão, Isaac e Jacó.
O livro combina dois gêneros literários distintos. Os capítulos 1
a 6 trazem narrativas de corte, histórias exemplares de fidelidade vividas por
Daniel e seus amigos em palácios estrangeiros. Já os capítulos 7 a 12 inauguram
a literatura apocalíptica, caracterizada por visões simbólicas, números
enigmáticos e a promessa de uma intervenção divina definitiva. A apocalíptica
não é uma previsão do fim do mundo cronológico, mas uma revelação (apokalypsis)
de que Deus é o Senhor da história, mesmo quando o mal parece vencer.
A estrutura do livro reflete sua composição multicultural, sendo
escrito em hebraico, aramaico e grego (nas partes deuterocanônicas como o
Cântico dos Três Jovens e a história de Susana, Bel e o Dragão). Para
compreender Daniel, é preciso decifrar seus símbolos principais:
● A Estátua (cap. 2):
Simboliza a sucessão de impérios com “pés de barro”, revelando a fragilidade de
todo poder baseado na opressão.
● As Bestas (cap. 7):
Representam os impérios humanos que, ao se afastarem de Deus, tornam-se
desumanos e devoradores.
● O Filho do Homem
(cap. 7): Uma figura humana que recebe o Reino eterno, representando o povo
fiel. Esse título foi assumido, pessoalmente, por Jesus Cristo.
● O Livro da Vida (cap.
12): A garantia de que a fidelidade não será esquecida e que a ressurreição
aguarda os justos.
A mensagem central é clara: “Seu reino jamais será destruído”. Os
impérios passam, mas a soberania de Deus permanece.
Daniel não escolhe nem a revolta armada, nem se rende ao jeito de
viver e aos deuses da Babilônia. Ele escolhe a fidelidade criativa. Ele serve
ao Estado, mas seu coração pertence apenas a Deus. Isso fala muito aos cristãos
que hoje precisam viver no mundo sem ser do mundo.
O livro ensina que a fidelidade cristã diante das grandes pressões
do mundo moderno — como o relativismo e o secularismo — se decide nas pequenas
escolhas diárias.
Em tempos atuais de guerras, polarizações, crises globais e
notícias falsas, Daniel assegura que a história não está abandonada ao acaso.
O Mês da Bíblia de 2026 com o Livro de Daniel é, portanto, um
itinerário para que as paróquias e comunidades do Brasil cultivem uma fé
corajosa e uma esperança ativa, certos de que, independentemente das
instabilidades do mundo, o Reino de Deus permanece inabalável.
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