Esclerose múltipla: entenda os sintomas, o diagnóstico e as opções de tratamento

Dr. Daniel Yankelevich, neurologista do dr.consulta

Cerca de 40 mil pessoas vivem com esclerose múltipla no Brasil, de acordo com dados publicados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)


 

A esclerose múltipla é uma condição crônica que afeta o sistema nervoso central, comprometendo a comunicação entre o cérebro e diferentes partes do corpo. Ela é causada primordialmente pela inflamação e degeneração da substância que envolve as células nervosas dentro do órgão alojado no crânio.

Segundo dados publicados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estima-se que aproximadamente 40 mil pessoas vivem com esclerose múltipla no Brasil. Em âmbito global, mais de 1,8 milhão de indivíduos são afetados, conforme informações da Organização Mundial de Saúde (OMS).
 

Embora não tenha cura, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para controlar os sintomas, reduzir a progressão e preservar a qualidade de vida das pessoas afetadas. A seguir, Dr. Daniel Yankelevich, neurologista do dr.consulta, explica o que causa a esclerose múltipla, como é realizado o diagnóstico e opções de tratamento disponíveis.

O que causa a esclerose múltipla (EM)
 

A esclerose múltipla é uma doença auto-imune, ou seja, o próprio sistema de defesa passa a atacar alguns alvos dentro do sistema nervoso central. O maior alvo é a mielina, uma membrana de gordura e proteínas que envolve o neurônio - como se fosse a capa de um fio elétrico que isola-o para não perder energia. Quando essa membrana é destruída, primeiro a condução pelo neurônio fica lenta, mas conforme a inflamação se mantém, o próprio fio é destruído deixando uma cicatriz.
 

Essa doença ataca diferentes áreas do sistema nervoso central, cada área gerando um sintoma diferente que chamamos de “surto”. Essa inflamação pode tanto diminuir sem deixar sequela ou pode deixar uma cicatriz no cérebro. Então após um “surto” o sintoma pode melhorar em algumas semanas, mas depois de alguns meses pode ocorrer um novo “surto”, agora em outro lugar no cérebro, com outro sintoma. E conforme os “surtos” vão acontecendo, a incapacidade vai se instalando. Por isso falamos que Esclerose Multipla é uma doença que se “dissemina no espaço” (ataca diferentes áreas do sistema nervoso central com diferentes sintomas) e se “dissemina no tempo” (tendo diferentes episódios de “surto” separados ao longo do tempo).
 

Como os sintomas iniciais podem ser transitórios sem deixar sequelas e até mesmo sintomas sutis, o diagnóstico pode demorar anos. Embora a causa exata seja desconhecida, pesquisadores identificaram múltiplos fatores que contribuem para o desenvolvimento da condição, como destaca artigo sobre o tema publicado no periódico Medicine, em 2024. Entre os principais elementos supostamente envolvidos estão:

  • predisposição genética, especialmente quando há familiares com a alteração ou outras disfunções autoimunes;
  • fatores ambientais e fisiológicos, como infecções virais (principalmente pelo vírus Epstein-Barr, que causa herpes em humanos) e deficiência de vitamina D;
  • características geográficas, já que a prevalência é maior em regiões mais ao norte do globo terrestre;
  • sexo e idade, sendo três vezes mais comum em mulheres e mais frequente entre os 20 e os 40 anos;
  • tabagismo, que pode acelerar a progressão dos sintomas.

Quais sintomas surgem com a esclerose múltipla?
 

De acordo com a área do cérebro machucada, os sintomas iniciais da doença podem variar. Os mais frequentes são:

  • visão embaçada ou perda visual em um olho;
  • formigamento, dormência ou redução da sensibilidade em um ou mais membros;
  • fraqueza em um ou mais membros;
  • dificuldade para caminhar, arrastar uma perna ou desequilíbrio;
  • visão dupla;
  • tontura ou vertigem;
  • falta de coordenação ou dificuldade para realizar movimentos precisos.

Como é realizado o diagnóstico
 

Os critérios diagnósticos de McDonald, última atualização de 2024, mostram que é possível realizá-lo a partir de parâmetros clínicos, de imagem e líquor. A história de “surtos” com diferentes sintomas ao longo do tempo sempre foi o eixo central do diagnóstico, mas hoje já se realiza o diagnóstico com apenas um “surto”.

A ressonância magnética de crânio se tornou o grande biomarcador da doença, sendo possível ver as lesões em diferentes localizações do sistema nervoso central (“disseminação no espaço”) e em diferentes estágios de evolução (“disseminação no tempo”).
 

Quais são as opções de tratamento disponíveis?
 

A abordagem terapêutica é personalizada e envolve múltiplas estratégias para controlar a progressão e melhorar a qualidade de vida. Inicialmente, o tratamento medicamentoso engloba diversas classes de fármacos utilizados para conter as crises e seus respectivos sintomas, bem como retardar a progressão da alteração, sempre com o devido acompanhamento.
 

Além de impedir os “surtos”, é importante também manter a autonomia e funcionalidade dessas pessoas por meio de reabilitação:

  • fisioterapia para manter mobilidade e força muscular;
  • terapia ocupacional para adaptações nas atividades diárias;
  • fonoaudiologia para disfunções de fala e deglutição;
  • psicologia para suporte emocional adequado.

“Apesar de não ter cura, tivemos uma revolução no tratamento da esclerose múltipla nos últimos anos. A doença que, até algumas décadas atrás, não tinha opções medicamentosas de tratamento, atualmente dispõe de múltiplas medicações de várias classes diferentes que são muito competentes em diminuir a inflamação cerebral e os consequentes ‘surtos’ da doença. Ainda não temos clareza se isso impede a doença de progredir, mas evoluímos muito.” finaliza Daniel.




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