*José Renato Nalini
Em recente artigo, o professor Marcus André Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, invocava um trecho do livro “O único assassinato de Cazuza”, do grande Lima Barreto. O livro é de 1922 e nada tem a ver com o cantor cuja mãe Lucinha mantém vivo na memória brasileira.
O trecho é eloquente: “Penso, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na Câmara, no Senado, nos ministérios, até na Presidência da República, se alimenta no crime. Que acha você?”.
Transplantado para nossos dias, a relação dos ricos poderia ser acrescida por várias categorias. O que leva as pessoas de bem a profundo desalento. Na verdade, a espécie humana é corruptível e não se incomoda de ser corrompida e de corromper, desde que leve alguma vantagem.
Será que é assim mesmo? Ou será que perdemos nossa capacidade de indignação?
A corrupção é apenas um dos fatores de um declínio generalizado de todos os valores. O declínio é lento, mas persistente. Crise na família, crise na Igreja, crise na educação, crise na economia e na política. Quando tudo parece esvair-se, os comportamentos reprováveis se multiplicam e não há punição, o desalento se apodera de consciências honestas, mas frágeis. Aquelas que precisam do exemplo para o reforço de suas convicções.
Isso não significa que tudo esteja perdido. A retomada do pudor é um trabalho que tem de começar em casa. Com as mães, primeiras mestras, responsáveis por aquele “currículo oculto” que ensina o trato a ser dispensado aos mais idosos, a polidez que vem perdendo espaço para a grosseria, as “palavras mágicas” do “bom dia”, “boa tarde”, “obrigado”, “desculpa”, verbetes esquecidos em muitas esferas.
Revigorar as crenças, quaisquer sejam elas, é também freio e incentivo. Admiro o agnóstico ou o ateu que, sem contar com punição ou retribuição depois da morte, ainda assim se comporta decentemente.
Enfim, não é porque o mundo parece podre que eu também tenha de chafurdar na lama. A consciência tranquila é um eficiente fator de satisfação pessoal. E fazer o bem é melhor para quem o pratica do que para quem o recebe. Confiemos na essência nobre do ser humano. A corrupção não é inextirpável. Para removê-la de nossa sociedade, comecemos por nós.
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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