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Evandro Macedo e Gabriel Okawa/ LIDE Alberto Griselli, CEO da Tim |
No 25º Fórum Empresarial LIDE, empresários e economistas defendem produtividade, segurança jurídica, infraestrutura e redução da burocracia.
O Brasil reúne condições privilegiadas para atrair capital em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, corrida tecnológica e busca por energia, alimentos e minerais, mas precisa enfrentar entraves internos que pressionam quem produz. A avaliação permeou as exposições realizadas na manhã desta sexta-feira (21), durante o 25º Fórum Empresarial LIDE, no Rio de Janeiro. Empresários, economistas e lideranças de diferentes setores colocaram no centro do debate temas como juros, carga tributária, segurança jurídica, infraestrutura, digitalização e produtividade.
Para Caio Megale, economista-chefe da XP, o cenário internacional abre uma janela relevante para o país. A demanda por energia, alimentos, petróleo, metais e minerais tem favorecido as exportações brasileiras e ampliado o interesse de investidores, enquanto a expansão da inteligência artificial cria novas oportunidades, inclusive para data centers.
“O mundo vê o Brasil mais como uma solução do que como um problema”, afirmou. O desafio, segundo ele, está dentro de casa: apesar do crescimento econômico, da inflação relativamente controlada e da balança comercial positiva, impostos e juros elevados vêm pressionando as empresas. “Por trás desses números positivos, nós temos duas distorções que vêm crescendo e que sufocam o setor privado”, disse.
Megale também chamou atenção para um ambiente internacional de juros estruturalmente mais altos. Governos precisam financiar dívidas elevadas ao mesmo tempo em que empresas, especialmente de tecnologia, disputam recursos para investimentos bilionários em inteligência artificial e infraestrutura. Na visão do economista, essa competição global por capital tende a manter o custo do dinheiro pressionado, tornando ainda mais importante que o Brasil faça seu próprio ajuste e crie condições mais competitivas para o investimento privado.
A ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques foi ainda mais enfática ao tratar dos obstáculos enfrentados pelas empresas. Segundo ela, o peso de impostos, juros e burocracia já atinge negócios de todos os portes. “Está ficando impossível produzir nesse país para o grande, para o médio, para o pequeno”, afirmou. Daniella defendeu uma mudança para um modelo econômico baseado em produtividade e incentivo à oferta e alertou que desequilíbrios fiscais acabam aparecendo na dívida pública, nos impostos, nos juros e no custo do crédito.
Para Daniella, destravar o crescimento passa por uma combinação de simplificação, redução de impostos, segurança jurídica e melhores condições para o capital privado.
“A gente precisa construir uma rampa de prosperidade e facilitar a vida, dar um choque de produtividade”, afirmou. Ela citou o potencial brasileiro para receber investimentos em áreas como energia e data centers, mas ponderou que o Estado precisa oferecer um custo de capital mais competitivo e regras capazes de dar confiança aos investidores.
A transformação digital apareceu como outra frente decisiva para a competitividade. O CEO da TIM Brasil, Alberto Griselli, destacou que o setor de telecomunicações representa cerca de 3% do PIB e investe entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões por ano. Segundo ele, a telefonia móvel já alcança todos os municípios brasileiros e o 5G chega a cerca de 70% da população.
“O próximo desafio é passar de um Brasil conectado a um Brasil digital para aumentar desenvolvimento, produtividade e competitividade”, afirmou.
Griselli avaliou que o avanço acelerado da inteligência artificial representa simultaneamente uma oportunidade e uma pressão sobre empresas, setores econômicos e até a soberania dos países. Para capturar os ganhos dessa transformação, porém, tecnologia não basta. O executivo defendeu a modernização do ambiente regulatório e destacou a necessidade de previsibilidade. “Uma boa parte das conversas acontece [em torno de] uma regra que acabou de mudar, que não era para mudar, que mudou”, disse ao relatar questionamentos recorrentes de analistas e investidores. Para setores de infraestrutura, nos quais os aportes levam décadas para amadurecer, a estabilidade das regras é especialmente relevante.
A necessidade de previsibilidade também atravessou outras exposições do Fórum. Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, apontou infraestrutura, energia e indústria como pilares da “atividade construtiva real” da economia e alertou para a perda de capacidade industrial brasileira. “Nós nos desindustrializamos severamente”, afirmou. Na avaliação de Prates, o país dispõe de recursos naturais, mercado e capacidade empresarial, mas sofre com gargalos logísticos e falta de integração entre modais e regiões produtivas.
No Rio de Janeiro, os números apresentados pela Firjan reforçaram a dimensão econômica do desafio. O presidente da entidade, Luiz Césio Caetano, afirmou que estudo da federação identificou nove novas fronteiras de desenvolvimento industrial com potencial de gerar cerca de 700 mil empregos e acrescentar R$ 210 bilhões ao PIB fluminense na próxima década. Ao mesmo tempo, entraves estruturais representariam um custo anual de quase R$ 95 bilhões às empresas instaladas no estado, segundo os dados apresentados durante o Fórum.
A segurança jurídica ganhou destaque ainda nas discussões sobre saúde e inovação. Pablo Meneses, da Rede D’Or, defendeu maior participação privada em pesquisa e desenvolvimento, mas condicionou uma expansão mais acelerada dos aportes à existência de regras previsíveis. “Para que tenhamos mais investimento privado na saúde, na pesquisa e no desenvolvimento, é necessário termos um grande pilar, que é o pilar da segurança jurídica”, afirmou. Para ele, o país já possui excelência científica e escala, mas precisa criar condições para transformar conhecimento em atividade econômica e inovação.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, abordou o mesmo tema pela perspectiva institucional e ressaltou que estabilidade não significa impedir mudanças, mas evitar alterações inesperadas capazes de comprometer decisões tomadas sob regras anteriores. “Não se fala, quando se fala em estabilidade, em engessamento do passado, mas sim em evitar surpresas desnecessárias”, afirmou.

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