*José Renato Nalini
O ser humano, péssimo inquilino do
planeta Terra, não sabe “criar” uma árvore. Mas é perito em acabar com ela.
Talvez não passe pela consciência de
alguns dendroclastas, exterminadores do futuro, que a natureza entregou à sanha
humana um tesouro que levou milhares de anos para se apresentar em sua
inteireza. Exuberante, luxuriante, com maravilhosa biodiversidade. Um
espetáculo indescritível e completamente alheio à vontade humana e, menos
ainda, à capacidade dos humanos de edificar algo igual.
No Brasil, o desmatamento é a maior
fonte de emissão dos gases venenosos causadores do efeito estufa. O patrimônio
milionário da ecologia tupiniquim aos poucos é devastado, cedendo espaço para o
agronegócio insustentável, depois para pasto e, finalmente, para desertos.
Somos hábeis produtores de áreas desérticas.
Quando se noticiou a ocorrência de
incêndios na Patagônia argentina, muita gente não prestou atenção ao recado: o
fogo ameaçava e atingiu árvores de quatro mil anos! Quantas gerações passaram
por esse longo período de germinação, crescimento, maturidade e vida plena de
um indivíduo arbóreo! Quatro mil anos!
É bizarro que alguém que vive
algumas décadas, não mais, seja o autor dessa façanha criminosa: acabar com
exemplares vivos que têm quarenta vezes mais idade do que o mais provecto dos
humanos. O Alerzal Milenário ali abriga exemplares de alerces que têm entre
2.600 e 4.000 anos de idade. O grupo arbóreo é simbolizado pelo “Abuelo” (avô),
apelido carinhoso a uma das árvores mais antigas e que atinge sessenta metros
de altura.
Nós também temos jequitibás,
jacarandás e outras espécies da riquíssima biodiversidade tupiniquim que vivem
muitos séculos. Infelizmente, estão acabando.
Os mais sensíveis poderão tentar
semear espécies nativas dos nossos biomas, principalmente da Mata Atlântica, a
mais sacrificada, porque é alvo de adensamento prejudicial à preservação da
qualidade existencial de todos os viventes. Sem esperar que esses “indivíduos
arbóreos” alcancem a plenitude. Por mais que a longevidade nos garanta mais
longa permanência neste planeta, nunca chegaremos aos quatro mil anos...
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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