A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa para se tornar uma ferramenta estratégica no sistema de Justiça. De tribunais que utilizam algoritmos para organizar processos e identificar demandas repetitivas a plataformas capazes de auxiliar na pesquisa jurídica e na elaboração de documentos, a tecnologia já começa a transformar a rotina do Judiciário e da advocacia. Para o professor Lacier Dias, empresário, especialista em estratégia, tecnologia e transformação digital, doutorando pela Fundação Dom Cabral e fundador e CEO da B4Data, no entanto, o potencial da IA ainda está longe de ser plenamente explorado e pode representar um dos principais caminhos para ampliar o acesso da população à Justiça, sem comprometer a segurança jurídica ou a atuação humana.
Segundo Lacier, o maior benefício da IA não é substituir juízes, advogados ou servidores, mas eliminar atividades repetitivas que consomem tempo e recursos. “Hoje, boa parte do trabalho jurídico ainda envolve análise de documentos, pesquisas em legislação e jurisprudência, organização de informações e elaboração de peças com estruturas semelhantes. A Inteligência Artificial consegue acelerar essas tarefas, permitindo que os profissionais concentrem seus esforços naquilo que exige interpretação, estratégia e tomada de decisão.”
Na prática, essa transformação já começou. O próprio Poder Judiciário vem incorporando soluções de Inteligência Artificial para classificação processual, identificação de demandas repetitivas, apoio à gestão de processos e automação de atividades administrativas. Escritórios de advocacia também utilizam plataformas capazes de analisar milhares de documentos em poucos minutos, localizar precedentes, revisar contratos e apoiar a produção de minutas jurídicas. “O resultado é uma redução significativa no tempo de execução de tarefas que antes demandavam horas ou até dias de trabalho”, ressalta o especialista.
Para o professor Lacier, a próxima etapa será utilizar a IA para aproximar o cidadão do sistema de Justiça. Ferramentas inteligentes poderão traduzir a linguagem jurídica para termos mais acessíveis, orientar pessoas sobre seus direitos, indicar a documentação necessária para cada procedimento, organizar informações antes do atendimento por um advogado ou defensor público e até auxiliar na mediação inicial de conflitos de menor complexidade. “A tecnologia pode reduzir barreiras que hoje afastam muitas pessoas do Judiciário. Quando o cidadão compreende seus direitos e consegue se preparar melhor antes de procurar atendimento, todo o sistema ganha eficiência.”
O especialista ressalta, porém, que esse avanço exige responsabilidade. “A Inteligência Artificial deve funcionar como uma ferramenta de apoio, nunca como substituta da decisão humana. Questões jurídicas envolvem interpretação, contexto, valores constitucionais e análise individualizada dos casos. A IA oferece velocidade e organização, mas a responsabilidade pelas decisões continuará sendo dos profissionais e das instituições.” Segundo ele, transparência, supervisão humana, proteção de dados e critérios éticos precisam acompanhar qualquer iniciativa de inovação no setor.
Na avaliação de Lacier Dias, o Brasil reúne condições para se tornar uma referência internacional na aplicação da Inteligência Artificial ao sistema jurídico. “O Judiciário brasileiro já é altamente digitalizado e produz um enorme volume de dados. Se conseguirmos integrar essa infraestrutura com ferramentas inteligentes, respeitando os limites legais e éticos, será possível reduzir a morosidade processual, ampliar o acesso à Justiça e oferecer um serviço mais eficiente para toda a sociedade. A IA não representa uma ameaça ao Direito; representa uma oportunidade de torná-lo mais acessível, ágil e efetivo.”
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