Castigo a cavalo

 



            *José Renato Nalini

            No meu tempo – eu já posso falar assim; vivi mais do que tenho à minha frente – usava-se tal expressão para dizer que o castigo viria rápido. A tecnologia tornou caduca essa frase. A velocidade hoje é supersônica. Mas a ideia continua vigente. Quem foge às responsabilidades, de alguma forma vem a merecer um castigo.

            É o que ocorre com a renitente categoria do ogronegócio, que reluta em adotar tecnologias sustentáveis e continua a fazer com que a maior causa de emissão de gases venenosos causadores do efeito estufa no Brasil provenha da ocupação da terra.

            Aqui, país do discurso edificante e da prática miserável – ressalvadas raras exceções, nunca a nível federal, mas subestatal – dispõe-se de profusa normatividade tutelar do ambiente. Mas tudo pouco efetivo. O que prevalece é o lucro. Legítimo sim, mas hoje imperativamente sustentável.

            O maior exportador de carne bovina do planeta pensou que continuaria a imperar no setor. Afinal, o Brasil tem mais gado do que gente. Sem levar a sério o aquecimento global, os produtores se esquecem que haverá drástica redução de pastagens. Muito calor, muita seca, pouca chuva.

            Já a União Europeia, com sua tradição milenar e cultura consolidada, continua a acreditar em medidas de contenção na emissão de gás carbono. Daí a iniciativa de fazer o contribuinte pagar pela pegada de carbono do bife que consome. Praticamente um quarto das emissões de gases de efeito estufa das residências europeias é proveniente da dieta de seus moradores.

            A carne é responsável por 28% das emissões relacionadas à alimentação. Uma alternativa a essa proposta seria criar uma taxa de carbono sobre os alimentos que refletisse a quantidade de emissões associadas à sua produção. Evidente que o custo político seria altíssimo. Todavia, lá se discute uma política estatal séria e consequente. Aqui, lamentavelmente, a preservação de uma economia insustentável produzirá, a médio prazo, uma situação que beira a catástrofe.

            É o castigo vindo, não mais a cavalo, mas na velocidade imposta pelas big techs e pela Inteligência Artificial.

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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