Água para o gado

 

            *José Renato Nalini

            É impressionante o dado fornecido por Jéssica Maes, na FSP de 2.2.26, de que a pecuária brasileira usa, por ano, mais água do que SP, RJ, BA, PR e DF juntos! Associe-se a notícia com o último relatório da ONU que o estado da água na Terra já não comporta menção a “escassez”, mas chegou ao estágio de verdadeira “falência hídrica”.

            A pecuária precisa de 10,1 bilhões de metros cúbicos de água por ano. Compete com a soja, que consome até 206 bilhões de metros cúbicos de água a cada doze meses, ou seja, sete vezes a capacidade da represa da usina hidrelétrica de Itaipu. Tudo isso deve ser garantido pela chuva, já que a irrigação não chega a 8% do total.

            Esses números não são fruto de “achismo”. Provêm de análise da Trase, iniciativa que rastreia cadeias produtivas e se baseia em bancos de dados da plataforma Mapbiomas e da ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento. O mundo já sabia que o setor agrícola consome 70% dos 4 trilhões de metros cúbicos utilizados pela humanidade. É importante que a população conheça esses dados que mostram o custo do uso indireto de água, aquele consumido através de produtos. Não passa pela cabeça do homem comum que o Brasil é um dos maiores exportadores de água no planeta.

            A questão hídrica brasileira interessa ao mundo inteiro, portanto. E se não houver uma transição ecológica da economia, os dois setores – gado e soja – enfrentarão imensas dificuldades. Em lugar de continuar a desmatar, esses gigantes da exportação de carne bovina e soja devem intensificar o reflorestamento das áreas degradadas. Em 2024, comprovou-se que o desequilíbrio climático gerado pelo desmate gerou prejuízo de US$ 1,03 bilhão, ou cerca de R$ 5,8 bilhões na produção de soja e milho na Amazônia, de 2006 a 2019. E parece que os setores que mais precisam de água não se importam com isso. Não prestam atenção à ciência e à pesquisa: desde 1980, há reiterado atraso na chegada da temporada de chuvas e redução do volume anual, além de crescente aumento da temperatura.

            Se não houver uma urgente tomada de providências, que depende de muito juízo, prudência e ética ecológica, tudo pode acabar muito mal!

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.   

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