A inteligência artificial chegou à política para ficar. E isso, por si só, não é um problema.

*Gabriel de Oliveira: assessor de imprensa e marketeiro político,


Inteligência artificial pode reduzir custos e ampliar possibilidades nas campanhas, mas não substitui estratégia, repertório e trabalho profissional. E, em uma eleição estadual ou nacional, dinheiro não pode servir de desculpa para comunicação com aparência de propaganda de tigrinho.  

Ela pode ajudar a pesquisar informações, organizar dados, revisar textos, criar roteiros, planejar conteúdos e até acelerar processos criativos. Como praticamente toda grande mudança tecnológica, a discussão não deveria ser apenas sobre proibir ou permitir. A questão mais importante é como usar.

Especialmente em um período eleitoral.

O uso de inteligência artificial na política já exige atenção das autoridades eleitorais. Deepfakes, manipulação de imagens, vídeos e áudios e a criação de conteúdos capazes de enganar o eleitor colocam desafios reais para a democracia. Transparência, identificação de conteúdo sintético e responsabilização pelo uso da tecnologia precisam fazer parte dessa discussão.

Mas existe outro problema, bem menos grave para a democracia e, ainda assim, bastante visível nas redes sociais.

As artes de IA.

Não estou falando de uma boa peça produzida com apoio da tecnologia. É perfeitamente possível usar inteligência artificial para desenvolver uma campanha visual interessante. Inclusive sem gastar fortunas.

Estou falando daquele santinho com cara de imagem gerada em cinco minutos. Cenários que não existem. Pessoas que não existem. Famílias artificiais sorrindo para uma câmera que nunca esteve ali. Mãos estranhas, textos errados, bandeiras deformadas e uma estética tão exagerada que, em alguns casos, parece mais propaganda de casa de apostas do que comunicação política.

Dinheiro não é desculpa para fazer artes que parecem propaganda de tigrinho.

E talvez esse seja o principal ponto. Enquanto um candidato faz um santinho de IA que só ele acha bonito, existem candidatos com menos recursos financeiros montando equipes pequenas, contratando profissionais e desenvolvendo uma comunicação muito mais eficiente.

Não é preciso ter o orçamento de uma campanha milionária para fazer o básico bem feito.

Uma identidade visual consistente. Uma fotografia de qualidade. Um bom designer. Textos que façam sentido. Vídeos bem planejados. Estratégia. Tudo isso pode ser construído de acordo com a realidade financeira de cada campanha.

Aliás, a própria tecnologia pode ajudar a reduzir custos.

Hoje existem ferramentas acessíveis para edição, planejamento, organização e produção de conteúdo. Uma equipe pequena e competente pode entregar mais resultado do que uma estrutura grande usando mal os recursos disponíveis. O problema não é ter pouco dinheiro. Muitas vezes, é acreditar que qualquer coisa produzida rapidamente por inteligência artificial substitui trabalho profissional.

Não substitui.

Uma imagem pode até ser bonita. Mas comunicação política não é apenas produzir algo bonito. É transmitir uma mensagem, construir reconhecimento e fazer com que o eleitor entenda quem é aquele candidato e o que ele representa.

Quando todas as publicações parecem ter saído do mesmo gerador de imagens, acontece justamente o contrário. O candidato perde identidade.

E isso nem entra no mérito da dimensão da disputa.

Estamos falando de eleições para cargos em nível estadual. Em alguns casos, de campanhas com alcance nacional. Não se trata apenas da eleição para uma pequena associação de bairro ou de uma disputa em que a comunicação acontece exclusivamente entre pessoas que já se conhecem.

Um candidato a deputado estadual ou federal disputa atenção em um ambiente saturado de informação. Precisa ser reconhecido entre dezenas ou centenas de concorrentes. Precisa explicar propostas, construir reputação e manter uma comunicação coerente durante toda a campanha.

Nesse cenário, improviso custa caro.

Uma arte ruim não necessariamente derrota um candidato. Mas dezenas de conteúdos sem identidade, vídeos genéricos e imagens artificiais podem construir uma percepção de amadorismo. E política também é percepção.

O eleitor talvez não saiba explicar por que determinada comunicação parece ruim. Mas percebe quando algo parece falso, exagerado ou simplesmente fora do lugar.

A inteligência artificial pode ser uma excelente ferramenta. Pode acelerar processos e ampliar as possibilidades de uma equipe pequena. Mas ferramenta não substitui repertório. Não substitui estratégia. Não substitui direção de arte. E, principalmente, não substitui a capacidade de entender com quem se está falando.

Talvez a grande ironia seja essa.

Nunca foi tão fácil produzir conteúdo. E, justamente por isso, nunca houve tanta gente produzindo conteúdo que parece igual.

Usar IA não é sinal de modernidade. Saber usá-la é.

E se o argumento for falta de orçamento, talvez valha olhar para quem tem menos recursos e, mesmo assim, escolheu investir no básico. Profissionais capazes de pensar, planejar e executar uma comunicação que não dependa de filtros exagerados, famílias inventadas ou santinhos com aparência de propaganda de tigrinho.

Uma campanha não precisa ser cara para ser profissional.

Precisa, antes de tudo, ser bem pensada.

Para candidatos que entendem que comunicação não é improviso e querem construir uma presença profissional, mesmo dentro de um orçamento possível, o primeiro passo não é abrir um gerador de imagens e pedir uma arte. É definir estratégia.

E estratégia, ao contrário de um bom prompt, ainda exige gente que saiba o que está fazendo.


*Gabriel de Oliveira é assessor de imprensa e marketeiro político, com experiência em comunicação pública, estratégia eleitoral e gestão de imagem. Escreve sobre política, marketing e negócios e é especialista em relações públicas, desenvolvimento social, economia e educação, com foco em políticas públicas e posicionamento político.

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