Emprego: especialista aponta quando é a hora de mudar, como destacar o currículo e dicas de posicionamento
por Marcelo Treff é professor de Gestão de Pessoas da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP).
Com a transformação acelerada do mundo do trabalho, impulsionada pelo uso intensivo de tecnologias e inteligência artificial, planejar a carreira exige mais do que buscar vagas ou negociar salários. Segundo o especialista em gestão de carreira e professor de Gestão de Pessoas da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Marcelo Treff, o foco deve ser a adaptação constante, o desenvolvimento de competências e a clareza de objetivos profissionais.
Segundo o docente, profissionais em diferentes momentos da trajetória — desempregados, empregados insatisfeitos, pessoas em transição de carreira ou avaliando a mudança entre CLT e PJ — precisam adotar estratégias específicas para aumentar suas chances de sucesso no mercado de trabalho.
Para quem está desempregado: encarar a fase como um projeto
Para quem busca recolocação, o primeiro passo é mudar a mentalidade. “O desemprego precisa ser encarado como um projeto de transição, com início, meio e fim”, orienta Treff. A partir disso, é fundamental mapear quais competências digitais e ferramentas de inteligência artificial são exigidas na área desejada, já que habilidades valorizadas há poucos anos podem ter se tornado obsoletas.
Outro ponto chave está na forma como o profissional se apresenta ao mercado. “Os sistemas de recrutamento estão mais sofisticados. Currículo e LinkedIn precisam conter palavras-chave contextuais, e não apenas termos soltos”, explica. Certificações rápidas em habilidades emergentes também funcionam como sinais claros de atualização profissional.
Para quem está empregado: sinais de alerta antes de mudar de empresa
Decidir o momento certo de mudar de emprego é uma das decisões mais importantes na vida profissional. Muitas vezes, o desejo de transição surge diante de fatores como falta de reconhecimento, ausência de perspectivas de crescimento, desalinhamento com a cultura da empresa ou até mesmo problemas de relacionamento com a liderança.
“Profissionais começam a pensar numa mudança quando percebem que o ambiente em que atuam não os impulsiona mais, seja por falta de um plano claro de carreira, reconhecimento ou compatibilidade com valores compartilhados”, explica Treff.
Segundo o especialista, alguns sinais funcionam como alertas claros de que pode ser a hora de buscar novos caminhos. A falta de motivação diária, a sensação de estagnação e a perda de propósito são alguns deles. O desgaste emocional e físico também merece atenção. “Quando o ambiente de trabalho começa a custar emocional e fisicamente, deixando de inspirar e desenvolver seus colaboradores, é sinal claro de que a busca por algo mais alinhado se torna não apenas lógica, mas necessária”, afirma Treff.
Para o professor, identificar o momento de partir é também uma forma de autoconhecimento e respeito pelo próprio desenvolvimento. “Reconhecer a hora certa de seguir em frente é um passo de maturidade profissional, que deve ser feito com responsabilidade, mas também com coragem.
Para quem quer mudar de carreira: foco em aproveitar competências
A transição de carreira em 2026 passa menos por começar do zero e mais por reaproveitar competências já desenvolvidas. O primeiro passo é listar as habilidades atuais e compará-las com as exigidas pela nova área, identificando as chamadas transferable skills, como gestão de projetos, análise de dados ou comunicação.
Ferramentas de inteligência artificial podem acelerar esse processo. “É possível usar prompts específicos para criar planos de estudo focados nas lacunas técnicas mais críticas”, afirma Treff. Ele cita como exemplo profissionais do Direito que migram para Tecnologia, que podem atuar em áreas como Ética de Dados e Compliance de IA utilizando o repertório jurídico como vantagem competitiva.
Erros comuns em currículos e entrevistas
Entre os principais equívocos cometidos por quem busca recolocação profissional em sites e aplicativos de emprego, o professor destaca três falhas recorrentes: o envio do mesmo currículo para todas as vagas, a criação de perfis genéricos ou incompletos e a candidatura para oportunidades que não correspondem aos requisitos mínimos.
Essas práticas, segundo ele, aumentam consideravelmente as chances de o candidato ser descartado logo nas primeiras etapas. “Esses erros fazem com que o candidato seja filtrado logo no início, muitas vezes antes de um recrutador sequer ver o currículo”, alerta.
Para se destacar em meio a centenas — ou até milhares — de candidaturas, Marcelo Treff reforça que a palavra-chave é relevância. Isso significa adaptar o currículo ao perfil de cada vaga, destacando competências e experiências conectadas ao que a empresa busca, mas sem exageros.
“O candidato precisa personalizar o currículo ao perfil da vaga, destacando experiências, resultados e competências diretamente conectados ao que a empresa procura, mas sem floreiros, nem exageros”, orienta.
Ele também afirma que currículos baseados em entregas concretas, com números e impactos claros, tendem a chamar mais atenção do que descrições genéricas de funções. Como exemplo, ele explica que é mais eficiente dizer “aumentei as vendas em 25% em seis meses” do que apenas escrever “responsável por vendas”.
Outra dica essencial é construir um perfil atrativo sem comprometer a veracidade das informações. Para o professor, é possível valorizar conquistas de forma estratégica, mas sempre com clareza e evidências. “A regra é simples: seja estratégico, não fantasioso. Clareza, objetividade e evidências geram credibilidade, e credibilidade é o ativo mais importante no ambiente digital”, afirma.
Plataformas ajudam, mas não substituem networking
De acordo com o docente, as plataformas online de fato aumentam as chances de conseguir emprego, pois ampliam o acesso às oportunidades e democratizam o processo seletivo, permitindo que profissionais de diferentes regiões encontrem vagas que antes sequer conheciam. Porém, esse avanço também trouxe um efeito colateral inevitável: o aumento da concorrência. “As oportunidades são reais, mas a sensação de ‘enviei e ninguém responde’ muitas vezes vem da alta competitividade e do uso de filtros automatizados para triagem. Não é ilusão, é um mercado mais amplo e mais disputado”, explica Treff.
Embora o recrutamento digital tenha ampliado a visibilidade dos candidatos, o professor reforça que o networking segue sendo decisivo no processo de recolocação. Indicações e conexões profissionais ainda são responsáveis por muitas contratações.
“As plataformas ampliam a visibilidade, mas o networking continua sendo decisivo. A estratégia mais eficaz combina presença ativa nas plataformas com gestão de relacionamentos profissionais consistentes”, afirma.
Planejamento de carreira requer flexibilidade
Em vez de planos rígidos de longo prazo, o professor defende um planejamento mais flexível. “Não planeje os próximos dez anos. Planeje os próximos dois, com objetivos claros e revisões a cada seis meses.” Para ele, a carreira deve ser vista como uma maratona, não como uma corrida de curta distância. “Não existe receita pronta de sucesso. O mais importante é o sucesso psicológico, aquele que faz sentido para você.”
Em um mercado cada vez mais automatizado, as habilidades humanas ganham protagonismo. “Autoconhecimento, equilíbrio emocional, empatia, julgamento ético e raciocínio crítico são as competências de maior valor”, diz Treff. Segundo o docente, o futuro do trabalho será definido menos por cargos e salários e mais por ecossistemas de competências e capacidade de adaptação contínua.
CLT ou PJ? Decisão exige análise além do salário
A migração entre regimes de contratação deve ser feita com cautela. Do ponto de vista financeiro, Treff explica que, como Pessoa Jurídica (PJ), o faturamento precisa ser entre 40% e 60% maior que o salário bruto CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) para compensar impostos, previdência, férias e 13º salário.
No aspecto jurídico, é preciso atenção à pejotização ilegal. “Se há subordinação, horário fixo e pessoalidade, a relação deveria ser CLT. Como PJ, você vende um serviço ou resultado, não o seu tempo integral.”
A qualidade de vida também entra na equação. “O regime PJ exige autogestão rigorosa. Sem disciplina, o profissional pode acabar trabalhando mais horas do que na CLT, sem a proteção legal.”
Boas práticas para se posicionar no LinkedIn
O professor da FECAP lista, abaixo, dicas para se posicionar na rede social sem comprometer sua imagem profissional
1. Tenha clareza de propósito antes de postar (a comunicação é irreversível)
Pergunte-se: por que estou publicando isso? Se o objetivo for compartilhar conhecimento, inspirar ou construir diálogo profissional, o conteúdo provavelmente é adequado. Se for apenas um desabafo impulsivo, vale repensar.
2. Mantenha o tom profissional, mesmo em temas pessoais (o Linkedin é uma rede profissional)
É possível falar de frustrações e aprendizados de carreira sem adotar um tom agressivo ou acusatório. Foque em reflexões e soluções, não em ataques ou generalizações.
3. Evite expor pessoas ou empresas (você não controla como as pessoas decodificam mensagens)
Relatar uma experiência é válido, mas citar nomes de recrutadores, colegas ou empregadores de forma negativa pode ser interpretado como falta de ética e profissionalismo, além de acarretar problemas legais.
4. Cuide da linguagem e da forma (Linkedin não é WhatsApp)
Revisar o texto antes de publicar é essencial. Erros de português, tom sarcástico ou frases ambíguas podem distorcer sua mensagem. No LinkedIn, a forma comunica tanto quanto o conteúdo.
5. Compartilhe aprendizados, não apenas críticas (demonstre maturidade emocional e profissional)
Um bom post é aquele que gera valor para a rede. Ao invés de apenas apontar falhas, destaque o que você aprendeu com a experiência ou como pretende agir diferente.
6. Construa uma narrativa coerente com sua imagem (alinhamento é fundamental)
Pense no LinkedIn como um portfólio público. O conjunto de suas publicações deve reforçar sua identidade profissional — seus valores, competências e área de atuação.
7. Interaja com respeito e empatia (demonstre consciência social)
Evite discussões acaloradas nos comentários. Discordar faz parte, mas o modo como se faz isso pode definir sua reputação. Demonstre escuta ativa e respeito às opiniões diferentes.
8. Valorize conteúdos originais e éticos (evite clichês digitais)
Evite copiar ideias ou frases de outros profissionais sem dar crédito. Autenticidade é um dos ativos mais valorizados em ambientes profissionais digitais.
9. Aposte em exemplos e histórias reais (evidências e fatos são valorizados)
Cases pessoais humanizam o perfil, desde que compartilhados de forma ética e sem expor terceiros. Uma boa história, contada com propósito, pode gerar grande engajamento positivo.
10. Pense a longo prazo (tenha visão de futuro)
Postagens impulsivas podem render curtidas no curto prazo, mas desgastar sua imagem no futuro. Reputação se constrói com constância e coerência, e o LinkedIn é um espelho fiel dessa trajetória.
O especialista: Marcelo Treff é professor de Gestão de Pessoas da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP). Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e Mestre em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua com os seguintes temas: Gestão da Carreira, Gestão de Competências, Gestão de Pessoas e Comportamento Organizacional.
Sobre a FECAP
A Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) é referência nacional em Educação na área de negócios desde 1902. A Instituição proporciona formação de alta qualidade no Ensino Médio (técnico, pleno e bilíngue), Graduação, Pós-graduação, MBA, Mestrado, Extensão e cursos corporativos e livres. Diversos indicadores de desempenho comprovam a qualidade do ensino da FECAP: nota 5 (máxima) no ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) e no Guia da Faculdade Estadão Quero Educação 2021, e o reconhecimento como melhor centro universitário do Estado de São Paulo segundo o Índice Geral de Cursos (IGC), do Ministério da Educação. Em âmbito nacional, considerando todos os tipos de Instituição de Ensino Superior do País, a FECAP está entre as 5,7% IES cadastradas no MEC com nota máxima.
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