*José Renato Nalini
Nossas cidades cresceram sem
planejamento. Nossa relação com a natureza sempre foi perversa e ignorante. Não
tomamos conhecimento das águas, nem da paisagem. Exterminamos as árvores,
retificamos os rios, enterramos os córregos e cursos d’água. Edificamos cidades
para o automóvel, não para as pessoas.
Isso não é de hoje. No século XIX,
ainda no Império, André Rebouças propunha um outro tratamento para a capital: o
Rio de Janeiro. Considerava um crime vedar a silhueta da serra com uma cortina
de edifícios justapostos, que em todo o contorno litorâneo, desde a Glória até
Copacabana, ocultaram o que o Rio tem de mais belo: a paisagem.
O terrível é que isso se disseminou
por todo o litoral brasileiro. Ubatuba, que tem mais de cem praias, de todos os
tipos e para todos os gostos, fez prédios arquitetonicamente horrorosos,
sacrificando colinas e enfeiando o visual. Como diz João Lara Mesquita, o
criador do “Mar Sem Fim”, as praias brasileiras foram favelizadas. Eliminou-se
a natureza para a edificação convencional à base de cimento, concreto, ferro,
aço e vidro. Nada mais antinatural para a orla paradisíaca, por nossa
ignorância conspurcada em todo o Brasil.
Não é melhor o trato destinado às
aglomerações, que precisam merecer especialíssimos cuidados quanto à sanidade.
Jean Jacques Rousseau, no século XVIII, já propagava a superioridade da vida
rural sobre a vida urbana. Voltaire foi um dos mais ilustres propagadores da
vacina e um constante batalhador pelo saneamento de Paris. Sabiam que era
missão democrática propagar a liberdade, a igualdade, a fraternidade, mas
também combater os monopólios aristocráticos, produtores de miasmas, de
micróbios e de ptomaínas, tanto para as almas, como para os corpos.
Como foi que regredimos tanto, para
lastimar o surgimento do negacionismo, a desconsideração quanto ao maior perigo
já enfrentado pela humanidade, que é o aquecimento global gerador das mudanças
climáticas e a bárbara, cruel e burra eliminação da natureza?
Caminhamos de erro em erro, cada vez
mais crassos e cruéis. Será que haverá tempo de acertarmos nossas contas com o
ambiente?
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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