Dramas, nostalgia, ficção científica. A edição desta semana da newsletter “cinéfila” do Olhar Digital traz de tudo um pouco. Para começar, destrinchamos a estreia desconfortável e genial de O Drama, longa com Zendaya e Robert Pattinson, no Prime Video. Também trazemos as primeiras impressões do frenético The Ghost in the Shell, outra estreia no streaming da Amazon. E ainda exploramos conexões e contraste entre o anime distópico e a calmaria reflexiva de Frieren. Não paramos por aí. No nosso giro de notícias, te atualizamos sobre o domínio da HBO Max nas indicações ao Emmy 2026, o recorde histórico de rejeição na carreira de Christopher Nolan e a discussão em torno de Tilly Norwood, a primeira "atriz" gerada por inteligência artificial (IA) a protagonizar um filme de Hollywood. E ainda tem os destaques do que estreou em outras plataformas de streaming. Sem mais delongas, vamos aos assuntos da semana. O Drama é um filme sobre julgamentos, não sobre segredosSe você estava procurando um filme para assistir neste fim de semana, recomendo que O Drama entre na lista. O longa chegou ao Prime Video nesta sexta-feira (10) e é uma boa oportunidade para conhecer um dos filmes mais curiosos que assisti em 2026. A história acompanha Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson), um casal aparentemente feliz que está prestes a se casar. Tudo muda quando, durante uma conversa entre amigos, Emma faz uma revelação inesperada sobre o próprio passado. A partir desse momento, o casamento deixa de ser o centro da narrativa. O filme passa a acompanhar o que acontece quando uma única informação muda completamente a forma como enxergamos alguém. É justamente por isso que acho importante assistir sem saber muito mais do que a sinopse. O Drama não depende de grandes reviravoltas. Ele funciona melhor quando você descobre seus caminhos junto aos personagens. Kristoffer Borgli, que escreveu e dirigiu o longa, transforma situações profundamente desconfortáveis em comédia sem nunca parecer que está fazendo piada delas. Não espere uma sequência de gags ou diálogos espirituosos. Boa parte das risadas nasce do constrangimento, de personagens tentando manter uma aparência de normalidade enquanto tudo ao redor vai lentamente desmoronando. É um humor que convive o tempo inteiro com a tensão. Este foi um dos aspectos de que mais gostei no filme. Essa mistura de humor e desconforto só funciona porque o elenco consegue sustentar as constantes mudanças de tom. Zendaya e Pattinson encontram um equilíbrio difícil entre drama e comédia. E fazem Emma e Charlie parecerem um casal real mesmo quando a situação foge completamente do controle. Os dois passam boa parte do filme reagindo muito mais do que falando. E funcionam justamente porque nunca tentam transformar seus personagens em heróis ou vilões. Rachel (Alana Haim) aparece menos, mas acaba sendo peça-chave para uma das perguntas mais interessantes do roteiro. Ao longo da história, diferentes personagens revelam erros graves do passado. O curioso não é descobrir quem fez a pior coisa. É perceber como julgamos esses erros de maneiras completamente diferentes. Quem merece uma segunda chance? Quem passa a ser definido para sempre pelo pior momento da própria vida? E por que somos tão inconsistentes ao responder essas perguntas? A sensação que tive é que O Drama nunca tenta responder essas questões. O filme prefere mostrar como nossos julgamentos costumam ser muito menos objetivos do que gostamos de imaginar. Conforme novas informações aparecem, a percepção que temos dos personagens muda constantemente. Em vários momentos, parece que Borgli está testando o espectador tanto quanto testa Emma e Charlie. Isso não significa que tudo funcione. Em alguns momentos, achei que Borgli confia demais no desconforto para sustentar determinadas cenas. E algumas ideias poderiam ter sido mais desenvolvidas. Ainda assim, essas pequenas ressalvas não diminuem o que considero o maior mérito do filme. No fim das contas, O Drama é menos uma história sobre um segredo do que sobre as consequências de conhecê-lo. É um filme engraçado, tenso e desconfortável na medida certa, que continua fazendo perguntas muito depois dos créditos finais. Se a ideia é aproveitar a estreia no Prime Video para assistir a algo que foge um pouco do convencional, essa é uma ótima escolha para o fim de semana – A.F. The Ghost in the Shell tem pressaO primeiro episódio de The Ghost in the Shell estreou no Prime Video na terça-feira (07). E o anime tem pressa. Sabe aquela sensação de entrar num emprego e ter dez minutos para entender tudo para já começar a trabalhar? É o que você provavelmente vai sentir ao dar play nesse episódio. Pelo menos, se não tiver conhecimento prévio sobre a obra. Criado por Masamune Shirow em 1989, Ghost in the Shell é uma das obras mais influentes da ficção científica, principalmente no subgênero cyberpunk. Você talvez conheça essa história (ou ao menos o visual dela) graças à adaptação dirigida por Mamoru Oshii, lançada no formato “filme de animação” em 1995 com o título O Fantasma do Futuro. Ou talvez conheça por conta de A Vigilante do Amanhã, adaptação (horrível, diga-se) em live-action na qual Scarlett Johansson interpreta a protagonista Motoko Kusanagi – um dos casos mais marcantes de whitewashing (quando se escala atores brancos para papéis de personagens de outras etnias) num filme de Hollywood. Bom, The Ghost in the Shell se posiciona como a versão para o audiovisual mais fiel já feita da versão impressa criada por Shirow. Diferente da animação lançada na década de 1990 (lenta, sombria, filosófica), o anime é acelerado e escrachado. E seu primeiro episódio definitivamente não quer que você rumine sobre o pano de fundo social, filosófico e político desta história. Essa parte é jogada em cima de você aos montes num intervalo de cinco minutos – os primeiros da série. Depois, em falas aceleradas e entrecortadas que nem tentam disfarçar que não estão te dando tempo para assimilar o que está sendo dito. Se você piscar, perde o fio da meada construído nos 25 minutos do episódio. A princípio, isso me fez pensar que esse anime não se propõe a ser uma porta de entrada para este universo. Me pareceu mais voltado para quem leu o mangá com calma anos atrás e agora quer ver aquelas cenas coloridas e em movimento. Acho difícil um primeiro episódio tão acelerado e com dump pesadíssimo de exposição e construção de universo ter potencial de conquistar audiência nova. De fisgar o interesse de quem não conhece Ghost in the Shell – seja o mangá, o filme animado ou o filme live-action. No entanto, reconheço que o passo acelerado pode, sim, conquistar aqueles que não costumam gastar mais do que três segundos focados em algo. E não estou falando apenas sobre a “geração TikTok”, tá? Estamos todos “tiktokzados” em algum grau. Então, é possível que essa aposta do Prime Video vingue. A ver. – P.S. Alma e memóriaAinda estou assistindo Frieren (gosto de assistir séries devagar, lembra?). E foi impossível não reparar no contraste gritante entre o anime medieval e The Ghost in the Shell – afinal, este é um anime distópico futurista. Num primeiro momento, essas histórias podem parecer água e óleo. Mas essa é a graça de caminhar com histórias em vez de atravessá-las numa maratona. Você começa a fazer conexões. É inevitável. Qual é a essência de uma criatura viva e pensante? A meu ver, está aí a intersecção entre The Ghost in the Shell e Frieren. Um explora a alma. O outro, a memória. Onde acaba uma e começa a outra? De que forma a segunda está dentro da primeira? Essa, para mim, vai ser a graça de assistir a esses animes em paralelo. Imagino que este será o ponto de partida das minhas reflexões. No mangá/anime distópico, alma me pareceu ser um elemento importante. Tanto que, na legenda, sempre aparece com letra maiúscula. A “Alma” é essencialmente o que diferencia humanos de máquinas – mesmo quando o, digamos, corpo biológico da pessoa já se tornou quase 100% sintético. O que sobra é a alma. No universo criado por Shirow, subentende-se que ela fica no cérebro. “Eu me rendo! Só não danifique meu cérebro!”, suplica um agente que mais parece um bicho-robô do que, bem, gente, ao ser destroçado pela carismática Motoko Kusanagi. É o que mais importa nele. É o mais importante para ele. As incontáveis camadas de aparato tecnológico são irrelevantes. Substituíveis. Seu cérebro, não. Este órgão armazena muita coisa. Entre elas, memórias. E este é o cerne da jornada de Frieren. Enquanto The Ghost in the Shell joga palavras-chave para o alto e deixa para você o trabalho de conectá-las, o anime medieval dedica grandes pedaços de episódios – às vezes, episódios inteiros! – para garantir que você entenda, que você literalmente veja, a construção de um pensamento. A tomada de uma decisão. É um anime que se propõe ser um momento de pausa. De contemplação, como já escrevi em outra edição desta newsletter. Inteligência artificial é outro ponto de contato que notei entre os animes. No distópico, a IA é mencionada aqui e acolá sem muitas explicações, pressupondo que você já conhece essa tecnologia. E, a essa altura, provavelmente conhece mesmo. Em Frieren, IA não existe, obviamente. É tudo orgânico. O que existe neste mundo fantástico em particular são demônios. Logo que eles aparecem na história, ali por volta do sétimo episódio, a elfa os descreve como criaturas que aprenderam a falar igual aos humanos para os enganarem. Ao ouvir isso, pensei imediatamente na IA generativa. Essa que conversa conosco. Que parece tão inteligente, mas não sabe de nada. Frieren quer te ajudar a refletir sobre as pessoas que passaram pela sua vida. Sobre o que elas te mostraram. Sobre o que você aprendeu com elas. Sobre como somos e seremos lembrados. Como as pessoas importantes da sua vida impactaram quem você é? Como suas lembranças sobre elas afetam seu jeito de agir? Talvez, ao pensar sobre isso, você conheça um pouco melhor sua própria alma. No fim do dia, é o que te diferencia de um ChatGPT. Ou, para colocar nos termos de The Ghost in the Shell, de “bonecos sem Alma que sangram vermelho”. – P.S. Otras cositas más sobre filmes, séries, tecnologia...
Estreias no cinemaConfira abaixo filmes que chegaram às telonas na quinta-feira (09):
Também acabou de chegar…
O que chega aos streamings nesta semanaO que esperar para a próxima semana nos streamings?
Sugestões e críticas podem ser enviadas para ana.figueiredo@olhardigital. Ana Luiza Figueiredo (A.F) e Pedro Spadoni (P.S) Repórteres do Olhar Digital |
Comentários
Postar um comentário