Simpósio sobre Cerrado e savanas tropicais é aberto com apresentação de Roberto Rodrigues


Foto: Breno Lobato

Ex-ministro da agricultura falou sobre as perspectivas para o agronegócio brasileiro

A palestra magna “Perspectivas do agronegócio”, proferida pelo ex-ministro da Agricultura e professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, Roberto Rodrigues, foi o grande destaque da abertura do X Simpósio Nacional Cerrado e III Simpósio Internacional Savanas Tropicais, na manhã dessa terça-feira (23) na Associação dos Docentes da Universidade de Brasília. O momento também contou com a participação de autoridades e uma apresentação virtual de Rattan Lal, referência mundial em Ciência do Solo e ganhador do World Food Prize em 2020.

Promovido pela Embrapa Cerrados (DF) em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) e com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o evento segue até quinta-feira (25) e busca promover a ciência e a tecnologia para a sustentabilidade do bioma Cerrado no contexto das savanas tropicais, além de um espaço qualificado de diálogo, compartilhamento de conhecimento e apresentação de evidências científicas para a construção de caminhos para a sustentabilidade, a conservação e a produção sustentável.

Estão inscritos 433 participantes, entre pesquisadores, docentes, estudantes, produtores rurais, gestores públicos, agentes do terceiro setor e empresas privadas. O Simpósio recebeu a inscrição de cerca de 170 trabalhos científicos, dos quais 149 pôsteres serão apresentados durante os três dias do evento.

A solenidade de abertura foi prestigiada por 270 participantes do Simpósio, e teve a participação do senador Izalci Lucas (DF); do deputado federal Rodrigo Rollemberg (DF); do decano de Pós-Graduação da UnB, Roberto Menezes, representando a reitora Rozana Naves; do diretor-executivo de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Clenio Pillon, que representou a presidente Sílvia Massruhá; e do presidente do Simpósio e pesquisador da Embrapa Cerrados, Adriano Veiga.

“Ao longo destes três dias, teremos a oportunidade de discutir e divulgar conhecimentos, tecnologias e experiências voltadas à produção agropecuária eficiente e sustentável, em consonância com a conservação dos recursos naturais dos cerrados e das savanas. Vamos mostrar que é possível”, afirmou Veiga, acrescentando que a programação do evento está estruturada em eixos temáticos que abordarão assuntos de grande relevância e atualidade, como meio ambiente, mudanças climáticas, sistemas de produção sustentáveis, políticas públicas e tecnologias emergentes.

O diretor Clenio Pillon lembrou que a partir da década de 1970, graças a investimentos em pesquisa e a políticas públicas estruturantes, o solo improdutivo do Cerrado foi transformado em grande celeiro do mundo, sendo o bioma atualmente responsável por 60% da produção nacional de grãos e base para a segurança alimentar do Brasil. Porém, os desafios atuais são mais complexos, como as mudanças climáticas, novas pragas, valoração da biodiversidade, construção e qualificação de políticas públicas e sua integração no território, além da inclusão socioprodutiva. “São desafios absolutamente complexos e que exigirão também soluções complexas e cada vez mais robustas e integradas”, apontou, citando os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. “São exemplos de que podemos, a partir do melhor da pesquisa e da ciência, garantir segurança alimentar, balanços ambientais favoráveis, alimentação saudável e promoção de saúde e qualidade de vida”, disse, reafirmando o compromisso da Embrapa com essa agenda.

Ao saudar a parceria entre a Embrapa e a UnB para a realização do Simpósio, o professor Roberto Menezes destacou que a questão da crise climática no mundo continua em impasse, e que ainda não há um fundo para o Cerrado, a exemplo do Fundo Amazônia, apesar da importância do bioma. “Que continuemos a produzir conhecimento acerca do Cerrado, mas que, sobretudo, esse conhecimento possa resultar em políticas públicas que não só preservem e conservem o Cerrado, mas que também promovam a justiça socioambiental, a inclusão e a igualdade”, declarou.

Izalci Lucas e Rodrigo Rollemberg receberam dos representantes da Embrapa e da UnB placas de homenagem pelo reconhecimento da importância da ciência, da tecnologia e da inovação para o desenvolvimento sustentável do País e pelo apoio fundamental à pesquisa agropecuária e, em especial, à realização do Simpósio.

Rodrigo Rollemberg ressaltou o caráter estratégico do bioma Cerrado para o Brasil, apontando a riqueza de sua biodiversidade como base para a agricultura do futuro. “Temos aqui também a grande caixa d’água do País, que vem sofrendo pelo impacto da agricultura, e este é um dos grandes desafios: como continuar produzindo e como diversificar a produção preservando os nossos mananciais de água”, apontou, lembrando que o bioma sempre abrirá oportunidades para a produção de alimentos, energia e água, mas tem desafios como a substituição gradativa ou quando possível, de insumos sintéticos e importados por novas tecnologias e bioinsumos produzidos localmente.

“Tive o privilégio, por duas vezes, de ser secretário de Ciência e Tecnologia (do DF) e foi lá que aprendi a importância do investimento em pesquisa e inovação”, relatou Izalci Lucas, informando que iria participar, logo em seguida, da primeira reunião da Comissão Mista de Orçamento no Congresso Nacional. “Como é difícil reconhecer o óbvio, que é investir na pesquisa, na ciência, na Embrapa, que é uma referência mundial e não é valorizada como deveria. Espero que consigamos avançar um pouco mais no orçamento deste ano. Tenho o maior orgulho de contribuir com a Embrapa e a UnB”, afirmou, opinando que o grande problema na pesquisa é a falta de popularização da ciência. “Precisamos mostrar à sociedade a relevância da pesquisa, da inovação, para que as pessoas possam reconhecer essa importância”, completou.

Perspectivas para a agricultura brasileira e o papel da ciência

Ao iniciar a palestra, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues apontou que o mundo passa por uma era de incerteza, com a perda do protagonismo de organizações multilaterais como a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), o que levou à falta de rumos e a uma crescente polarização política, ideológica, religiosa e étnica, culminando em guerras como a do Irã, que produziram, em 2026, uma grave crise na agricultura brasileira que transcende problemas internos. “O que a gente faz? A resposta é uma só: o horizonte que se tem mais à frente é mais risonho, mas é preciso sobreviver, fazer mais com menos. Essa é a única receita”, ensinou.

Ele recordou que no período da pandemia os países que não eram autossuficientes em alimentos correram ao mercado para se abastecerem, evidenciando o papel fundamental da segurança alimentar. “Não é uma expressão idiomática. A segurança alimentar é a única condição de estabilidade política e social para uma nação. Esses países correram ao mercado em busca da garantia de sua própria sobrevivência. Só que os estoques mundiais eram baixos e os preços dobraram em dólar, produzindo uma inflação mundial terrível, que se somou a um desemprego muito grande e a um desmanche das áreas produtivas. A pandemia deixou claro que o tema segurança alimentar tinha uma transcendência muito maior do que se imaginava anteriormente”, observou.

Ao mesmo tempo, como apontou Rodrigues, a questão da energia ganhou a dimensão do renovável. “Há uma visão mundial de que commodities grandes, que eram tratadas como algo secundário num passado recente, passaram a ter um valor transcendental. Alimentos e energia são dois temas que a pandemia e a guerra consolidaram como fundamentais para a sobrevivência da humanidade e a paz universal. Somados às terras raras, transformaram países que são potenciais produtores de agricultura e energia com sustentabilidade e com terras raras em potenciais potências econômicas para o mundo contemporâneo”.

Nesse sentido, o Brasil tem atualmente uma dimensão planetária muito maior, em termos de potencial, que há cinco anos. “É o que me leva a dizer sempre: fiquem vivos na agricultura, porque a situação vai melhorar muito no médio e no longo prazo para o País”, afirmou o ex-ministro, contextualizando que o mundo tem operado pelo que ele chama de quatro modernos “cavaleiros do apocalipse”: segurança alimentar, energia, mudanças climáticas e desigualdade social.

“Temos que enfrentar esses problemas e a solução é a agricultura tropical, que já foi vencida pela pesquisa agrícola brasileira. A ideia é que esta faixa do mundo (cinturão tropical) seja a solução do assassinato dos quatro ‘cavaleiros do apocalipse’. Mas o Brasil é único país de toda essa região que desenvolveu uma agricultura tropical de fato sustentável”, disse, mostrando um mapa-múndi que destaca a região tropical do planeta. “O País tem que assumir o comando desse processo de transformação no mundo tropical, até porque o Cerrado, que é o grande ‘milagre’ brasileiro, tem temas parecidos em vários países tropicais da África e da Ásia. O modelo que nós fizemos, com base em ciência e tecnologia, é o modelo replicável no mundo e que decide esses quatro problemas para o bem da humanidade”, afirmou Rodrigues.

Ele apresentou um estudo do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) de 2017 que projetava o aumento da produção de alimentos necessário para atender a demanda estimada para 2026/27, no qual o Brasil aumentaria sua produção em 41%. Segundo Rodrigues, essa conclusão se deu por quatro razões: tecnologia, empreendedorismo, terra e políticas públicas, sem falar no crescimento do mercado externo. Também mostrou dados da evolução da produção de grãos e carnes no País ao longo dos anos, com sucessivos ganhos em produtividade que proporcionaram a poupança de 151 milhões ha de áreas. “O agronegócio brasileiro é sustentável de fato, na veia. Ninguém fez o que nós fizemos”, frisou, apresentando, ainda, dados da Embrapa que mostram que todo o uso agropecuário brasileiro ocupa 31,3% do território nacional, enquanto 65,6% representam áreas de proteção, preservação e conservação da vegetação nativa.

Já a matriz energética brasileira, de acordo com dados de 2024 do Ministério de Minas e Energia, atualmente é composta em 50% por fontes renováveis. “Somos três vezes melhores que o mundo em energia renovável. Mais da metade da energia renovável vem da agricultura, como etanol, biomassa, biometano e lenha. A agricultura tem uma contribuição fantástica para a produção de alimentos e energia, gerando emprego e renda para os mais pobres”, destacou, mostrando que o agronegócio, de acordo com projeções para 2025, foi responsável por 29,4% do PIB nacional, 26% dos empregos no Brasil e 49% das exportações, garantindo saldo comercial positivo do País nos últimos anos e, consequentemente, maiores reservas cambiais.

Rodrigues apresentou dados dos produtos agrícolas exportados em 2000 (US$ 20,6 bilhões, sendo 21,5% produtos florestais) e em 2025 (US$ 169,2 bilhões, sendo 31,3% produtos do complexo soja). O Brasil é atualmente líder mundial em produção e exportação de produtos como suco de laranja, soja, café, açúcar e carne bovina e um dos primeiros em carne de frango, milho e carne suína.

Por outro lado, o País não tem relevância no comércio mundial de produtos como peixes, leite e frutas. “Temos muito o que fazer, sem falar nos produtos combustíveis. É um negócio que vai acontecer. Há um cenário espetacular para crescermos”, projetou, lançando, por outro lado duas questões: “Podemos aumentar nossas exportações de alimentos em 40% em 10 anos? Sim. Temos tecnologia, pessoas, empreendedorismo, política pública, comércio. Vamos aumentar? Acho que não, está faltando estratégia para isso”, comentou o ex-ministro, que vivenciou iniciativas de desenvolvimento do Cerrado nos anos 1970 e 1980, como o Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento Agrícola dos Cerrados (Prodecer) e o Programa de Desenvolvimento dos Cerrados (Polocentro).

“É preciso ter uma estratégia da qual a conquista da savana é parte central”, declarou, acrescentando que devem ser consideradas políticas de renda como o seguro rural; acordos comerciais com outros países; diversificação da cadeia de produtos; segurança jurídica; organizações privadas; erradicação de ilegalidades; sustentabilidade; cuidado com a imagem; e, principalmente, investimentos em ciência e tecnologia. “A única saída é ciência. Um país sem educação não tem cientista. Um país sem cientista não tem ciência. E um país sem ciência mata seu futuro. Ou fazemos ciência ou vamos perder a chance de sermos campeões de alguma coisa útil de verdade, como campeões mundiais da paz”, alertou.

Para Rodrigues, as pessoas deveriam se orgulhar dos feitos da agricultura brasileira nas últimas décadas, salientando que os meios urbano e rural se complementam. “A cidade me permite calçar, vestir, estudar, ter o serviço do banco e adquirir insumos e máquinas para plantar. E a agricultura é a vida, mas as pessoas no Brasil não se lembram disso, nem nós sabemos falar isso para elas. Precisamos convencê-las de que agricultura é vida para todos e que ela só existe com ciência, tecnologia e cientistas que façam as coisas andarem”, concluiu.

Savanas tropicais globais e o sucesso do Cerrado

Em apresentação gravada para o Simpósio, o cientista indiano Rattan Lal, da Ohio State University (EUA) tratou do tema “Global tropical Savannas and Success of the Cerrados”. Ao apresentar dados e características comuns das savanas, como elevadas temperaturas e distintas estações anuais de chuva e seca, ele destacou o caso de sucesso do Brasil, que de importador de alimentos na década de 1960, o País passou a maior exportador líquido graças à revolução agrícola no Cerrado.

A FAO estimou, em 2009, que para alimentar a população mundial em 2050 será necessário um aumento de 70% em relação à produção atual de alimentos no planeta. Para isso, serão necessários mais 120 milhões ha de terra arável. “Na verdade, espero que se adotarmos o que fizemos na América do Sul, no Brasil, nos Llanos, nos Pampas, nos Cerrados, na África e em outros lugares, algumas terras marginais possam ser devolvidas à natureza”, comentou.

Lal defende que a África, com terras suficientes para alimentar 9 bilhões de pessoas e abundância em recursos naturais, precisa se tornar o novo celeiro do mundo, mas que é preciso força de vontade política para transformar a ciência em ação, empoderando os agricultores por meio de políticas favoráveis à agricultura. “A África gastou US$ 65 bilhões em 2017 com a importação de alimentos e estimativas recentes apontam para US$ 100 bilhões. Imaginem se ela fosse autossuficiente em alimentos e todos esses US$ 100 bilhões fossem reinvestidos no continente, o que isso poderia significar?”, indagou, apontando a adoção de práticas agrícolas aprimoradas como caminho para superar a lacuna de produtividade, inclusive em escala global.

O cientista considera a saúde do solo o elemento principal nesse processo. “Precisamos incentivar os agricultores a proteger e restaurar o solo, restaurar o teor de carbono orgânico do solo, aumentar a biodiversidade do solo, viver em harmonia com a natureza, respeitar a lei do retorno e a tratar o solo como uma conta bancária: você nunca pode sacar de um banco mais do que depositou nele”, comparou. Ele explicou que os solos dos agroecossistemas podem se tornar um dreno em vez de uma fonte, pois a agricultura abrange 5 bilhões ha globalmente. “E os solos do Cerrado e das savanas, especialmente, podem se tornar um importante dreno de carbono, podendo mitigar as mudanças climáticas”.

Isso, segundo Lal, pode ser feito por meio da agricultura de carbono. “Cultivamos carbono no solo e na terra como uma cultura, assim como soja, milho, carne bovina e leite. Isso pode criar outra fonte de renda para os agricultores por meio do pagamento por serviços ecossistêmicos”, sugeriu. Segundo o cientista, a agricultura de carbono consiste no uso de variedades melhores, com sistemas radiculares mais desenvolvidos; em plantas que podem se comunicar por meio de sinais moleculares, cultivadas em plantio direto, com cobertura morta e em combinação com plantas de cobertura; em sistemas radiculares profundos que integram culturas árvores e gado; em solos com maior atividade biótica, de modo a se tornarem supressores de doenças; e no manejo de nutrientes feito em combinação com a água, por meio da fertirrigação profunda, de modo que todos os nutrientes e a água sejam absorvidos pelas plantas sem serem lixiviados para o ambiente.

Para Lal, a cooperação de agricultores, acadêmicos, organizações de desenvolvimento e formuladores de políticas com o setor privado é fundamental para transformar a ciência em ação. “Por meio do desenvolvimento de práticas favoráveis aos agricultores, à natureza e à agricultura, o setor privado pode promover uma agricultura positiva para a natureza, ampliar o acesso a insumos, atrair investimentos e promover a educação”.

Ele finalizou a apresentação citando programas do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), como o “Living Soils of Africa” e o “Living Soils of the Americas”, que visam transformar a agricultura da savana tropical em parte da solução para as mudanças climáticas causadas pelo homem e as questões ambientais. “Os solos de ecossistemas manejados têm grande capacidade de absorção, e essa capacidade pode ajudar a lidar com as questões climáticas e de segurança alimentar. E a missão de todos, incluindo o IICA e outras organizações, é de que não deixar nenhum agricultor para trás na revolução da agricultura das savanas tropicais”.

Após a abertura, foi iniciada a programação técnica do Simpósio, que conta com palestrantes nacionais e internacionais, distribuídos em cinco painéis temáticos: “Meio Ambiente e Mudanças Climáticas”, realizado na tarde de terça-feira, 23; “Sistemas de Produção Agrícola Sustentáveis” e “Agropecuária Sustentável: Casos de Sucesso”, nesta quarta-feira, 24; “Políticas Públicas Baseadas em Ciência e Tecnologia” e “Tecnologias Emergentes na Agropecuária Tropical”, nesta quinta-feira, 25.

Mais informações sobre o X Simpósio Nacional Cerrado e III Simpósio Internacional Savanas Tropicais na página oficial do evento: https://www.embrapa.br/web/cerrados/simposiocerrado2026


Breno Lobato (MTb 9417/MG)
Embrapa Cerrados

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