*José Renato Nalini
O status civitatis era a fórmula
romana para qualificar os seres humanos quanto à sua participação na vida
comunitária. Essa herança foi transmitida para todo o Ocidente e durante o
Império chegamos a ter um modelo original, que foi o status de “ingênuo”.
O que era o “ingênuo”? Era a
situação do filho de escravo nascido depois de 1871, que pela Lei Paranhos, já
nascia livre. Como até os 21 anos ficavam eles sob a custódia dos senhores,
estes usufruíam de um trabalho gratuito desde a infância e até essa idade.
Só que o Brasil já era a nação em
que “há leis que pegam e leis que não pegam”. Assim, muitos ingênuos
continuavam a ser vendidos em praça pública. Havia também o Fundo de
Emancipação, mas tão reduzido, que mal chegava aos municípios de maior
população cativa. Além disso, suas cotas eram defraudadas pelos escravocratas e
pelos seus clientes, na indenização por preços exorbitantes e escandalosos de
escravos incapazes de lhes prestar mais serviços.
Como o escravo era “coisa”,
“mercadoria”, não havia estatística do contingente cativo, o que inviabilizava
qualquer programação orçamentária. Nunca foram construídas as escolas para
educação de ingênuos, que continuavam a habitar as senzalas e chiqueiros. Viviam
entre porcos e cães.
Embora a Lei Rio Branco tenha sido
recebida entre flores e lágrimas de júbilo, ela não resolveu tudo. Houve forte
resistência surda, fraudes nas matrículas de escravos, substituições de nomes
de mortos nos vivos, o que frustrou a potencial e desejável incidência da lei.
Os ingênuos foram espezinhados e
chamados, desairosamente, de “filhos do Paranhos”. Suas mães eram remetidas ao
mercado e engrossaram a indústria das amas de leite. Predominava o monopólio
territorial: os grandes senhores de escravos eram exatamente os grandes
senhores de terras. E as fazendas valiam mais pelo número de escravos
disponíveis do que pela sua extensão. O preço da propriedade era aferido
principalmente pela força do trabalho.
Os “ingênuos” eram vítimas da falta de ingenuidade dos senhores de escravos. Nada de novo sobre a Terra.
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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