
Expectativa de um volume recorde de recursos reacende o debate sobre profissionalização das propriedades rurais e mostra que produtividade e rentabilidade caminham juntas
A expectativa pelo anúncio do Plano Safra 2026/2027 movimenta o agronegócio brasileiro. A proposta em discussão pelo governo federal prevê cerca de R$ 550 bilhões em crédito rural, um aumento em relação ao ciclo anterior, além da possibilidade de linhas de financiamento com juros abaixo de 10% ao ano. Embora a medida seja vista como um impulso para novos investimentos, especialistas alertam que o acesso ao crédito, por si só, não garante propriedades mais lucrativas.
Segundo dados do último Censo Agropecuário do IBGE, apenas 20,1% dos produtores rurais brasileiros recebem assistência técnica. Isso significa que boa parte das decisões relacionadas ao manejo, à nutrição das plantas, ao controle de pragas, à irrigação e à gestão financeira ainda é tomada sem suporte especializado.
Para Romário Alves, CEO da Sonhagro, o novo Plano Safra representa uma oportunidade importante para modernizar o campo, mas exige planejamento para que os recursos gerem retorno.
"O crédito rural é uma ferramenta de desenvolvimento, mas precisa ser utilizado de forma estratégica. O produtor que conhece seus custos, planeja seus investimentos e entende onde estão seus gargalos consegue transformar o financiamento em produtividade e rentabilidade. Sem gestão, existe o risco de aumentar o endividamento sem melhorar os resultados da propriedade”.
Na avaliação de Vitor Borges, especialista em manejo agrícola, produtividade e rentabilidade no agro, a profissionalização da produção continua sendo o principal diferencial entre quem apenas produz e quem transforma a atividade em um negócio sustentável.
“O produtor que não mede, não planeja e não acompanha a lavoura de perto acaba tomando decisões no escuro. Ele pode até colher, mas não necessariamente está ganhando dinheiro. A diferença entre produzir e ter lucro está no manejo profissional".
Os números ajudam a ilustrar esse cenário. Dados do IBGE mostram que a produtividade média nacional do maracujá ficou em 15,64 toneladas por hectare em 2024. Segundo Borges, propriedades que investem em planejamento, manejo do solo, irrigação, nutrição equilibrada, polinização e monitoramento constante conseguem resultados muito superiores. Em áreas acompanhadas por ele, a produtividade alcançou entre 40 e 45 toneladas por hectare, quase três vezes a média nacional.
“O problema não é o tamanho da propriedade. É a forma como ela é conduzida. Quando o produtor deixa de tratar a lavoura como uma atividade de subsistência e passa a administrá-la como um negócio, o ganho de produtividade e de rentabilidade aparece naturalmente".
Além da produtividade, o controle financeiro também tem papel decisivo. Sem conhecer o custo real de produção, muitos agricultores encontram dificuldades para calcular margens, negociar preços, definir o momento de comprar insumos e avaliar novos investimentos.
Para Romário Alves, essa visão integrada entre gestão financeira e operação tende a ganhar ainda mais importância diante da ampliação das linhas de crédito.
“O financiamento deve ser encarado como parte de uma estratégia de crescimento, e não como uma solução isolada. O produtor que investe em tecnologia, planejamento e controle consegue aproveitar melhor os recursos disponíveis e aumentar sua competitividade mesmo em um cenário de custos elevados”.
Outro desafio está nas perdas provocadas por pragas e doenças. A Embrapa estima que insetos, doenças e plantas invasoras possam reduzir de 30% a 40% a produção de diferentes culturas, tornando o manejo preventivo um fator decisivo para preservar a rentabilidade.
"Quando o problema é identificado tarde, o prejuízo já começou. O produtor perde produtividade, qualidade e poder de negociação. Por isso, manejo preventivo e acompanhamento constante são essenciais", afirma Borges.
Na avaliação dos especialistas, o futuro do agronegócio dependerá cada vez menos da expansão das áreas cultivadas e cada vez mais da capacidade de transformar informação, tecnologia e planejamento em resultados financeiros. Em um mercado cada vez mais competitivo, produzir continua sendo fundamental, mas administrar bem a propriedade é o que determina a rentabilidade.
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