Junho Laranja: a história de vida e a ciência por trás da cura de um diagnóstico raro de leucemia

 



Com mais de 12 mil novos casos anuais previstos pelo Inca para o triênio 2026–2028, a campanha de conscientização ganha força com a emocionante história de superação do paciente Flávio de Barros, que venceu um tipo agressivo da doença após transplante

De acordo com as projeções oficiais do Instituto Nacional de Câncer (Inca) para o triênio de 2026 a 2028, o Brasil deve registrar mais de 12.220 novos casos de leucemia a cada ano. Esses dados revelam a importância do diagnóstico precoce e da solidariedade por meio da doação de medula óssea, um gesto que transformou por completo o destino do carioca Flávio de Barros Moses, de 50 anos.

A jornada de Flávio começou com o diagnóstico de Leucemia Mieloide Crônica (LMC), um tipo de câncer que se origina na medula óssea. O cenário se tornou drasticamente mais complexo quando a doença passou por uma transformação rara e agressiva e se converteu em uma Leucemia Linfoide Aguda (LLA). Diante da gravidade do quadro, a única alternativa definitiva de cura era o transplante alogênico de medula óssea, ou seja, aquele que depende de um doador compatível.

A esperança cruzou o caminho de Flávio por meio do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome), que localizou Beatriz, uma candidata com compatibilidade quase perfeita (9 em cada 10 pontos). O procedimento foi realizado com sucesso em setembro de 2022 no Complexo Hospitalar de Niterói (CHN), unidade da Rede Américas, a segunda maior rede privada de hospitais do Brasil.

No entanto, o pós-transplante impôs grandes desafios, incluindo complicações como reativação viral e disfunção do enxerto, momentos em que a vida do paciente esteve sob intensa vigilância médica. Hoje, totalmente recuperado, Flávio mantém uma rotina ambulatorial preventiva, leva uma vida normal e teve a oportunidade inesquecível de conhecer pessoalmente a mulher que lhe devolveu o futuro.

“Após a frustração de não encontrar compatibilidade na família e uma longa busca por um doador, recebi a confirmação de uma doadora brasileira compatível e, em outubro de 2022, fiz o transplante. A partir dali, comecei uma nova etapa de recuperação e, hoje, tenho uma vida normal, com qualidade de vida, e guardo uma enorme gratidão por todos os profissionais que me acompanharam com carinho, atenção e competência ao longo dessa jornada.”

De acordo com o dr. Jacques Kaufman, hematologista e médico transplantador do Complexo Hospitalar de Niterói (CHN), o sucesso de casos complexos como o de Flávio reflete o amadurecimento das técnicas de suporte e do monitoramento constante das complicações.

“A transformação da doença de Flávio foi um cenário clínico raro e de altíssima gravidade. Foi como se uma patologia que costuma caminhar de forma mais lenta sofresse uma mutação e se transformasse em um adversário extremamente veloz e agressivo. Diante disso, o transplante de medula óssea foi a única chance real de cura. Vê-lo hoje em acompanhamento ambulatorial e levando uma vida perfeitamente normal é a maior recompensa e a prova de que a evolução da medicina diagnóstica e terapêutica está vencendo as estatísticas mais duras”, comenta o médico.

A dra. Simone Maradei, também hematologista e responsável técnica pelo transplante de células-tronco hematopoéticas do CHN, ressalta que o Junho Laranja, campanha nacional de conscientização sobre a leucemia e a anemia, destaca o diagnóstico precoce dessas condições e se consolida como o momento ideal para reforçar a importância do transplante de medula óssea. Ela pontua que as inovações nos tratamentos onco-hematológicos têm proporcionado desfechos positivos antes considerados improváveis.

Inovações em terapias celulares aumentam a esperança diante de casos complexos

Para além dos transplantes tradicionais com doadores compatíveis encontrados em bancos de dados, a medicina deu passos largos na criação de estratégias personalizadas para os casos mais resistentes de cânceres do sangue. Um exemplo dessa revolução científica é a história de Sandra Abelha Lima, de 71 anos. Diagnosticada com linfoma do manto, um tipo desafiador de câncer que ataca as células de defesa do organismo, Sandra enfrentou uma verdadeira maratona terapêutica.

Inicialmente, ela passou por quimioterapia convencional seguida de um transplante autólogo (quando as células-tronco do próprio paciente são tratadas e devolvidas ao corpo), o que garantiu quatro anos de calmaria. Diante de uma posterior recaída, a ciência ofereceu uma alternativa moderna: a chamada terapia-alvo com o medicamento Acalabrutinib. Esse tipo de tratamento funciona como um míssil guiado, bloqueando especificamente as proteínas que fazem o tumor crescer e minimizando os danos às células saudáveis. Sandra respondeu bem ao medicamento por dois anos e meio.

A doença voltou a progredir, e a equipe médica utilizou um novo protocolo quimioterápico que funcionou como um recomeço para o sistema imunológico, abrindo caminho para uma estratégia altamente inovadora: o transplante alogênico haploidêntico.

Realizado em maio de 2024, no CHN, esse método viabiliza o transplante utilizando a medula de um familiar apenas 50% compatível, no caso, seu filho Daniel, de 37 anos. O objetivo principal foi ativar o chamado “efeito enxerto contra tumor”, em que as novas células doadas pelo filho passam a reconhecer e destruir qualquer vestígio de câncer no corpo da mãe.

O período pós-transplante imediato trouxe desafios severos, como infecções graves, insuficiência cardíaca e a Doença do Enxerto contra o Hospedeiro (DECH), uma reação em que as células novas estranham o organismo receptor. Contudo, a precisão do suporte médico superou os obstáculos. Dois anos após o procedimento, Sandra vive uma vida normal, em remissão completa, provando que a idade e a agressividade da doença já não são barreiras intransponíveis para a cura.

“O grande avanço desse caso foi mostrar que a ausência de um doador 100% compatível já não representa, necessariamente, um impedimento para o transplante. Hoje, os transplantes com doadores haploidênticos, que compartilham cerca de 50% da compatibilidade HLA, apresentam resultados cada vez mais comparáveis aos dos transplantes com doadores totalmente compatíveis, ampliando significativamente o acesso à terapia. Isso permite que a grande maioria dos pacientes tenha um doador potencial dentro da própria família. No caso da Sandra, além de tornar o transplante viável, utilizamos essa estratégia para potencializar o efeito enxerto contra o tumor, contribuindo para a remissão completa de um linfoma resistente a tratamentos prévios. O sucesso desse tratamento em uma paciente de 71 anos, mesmo após complicações críticas, reforça o transplante haploidêntico como uma das grandes evoluções da terapia celular moderna.”, comenta Simone.

“Foram cerca de dez anos de uma intensa jornada de tratamento. Houve momentos de grande desgaste físico e emocional, mas nunca deixei de acreditar. Meu filho Daniel teve a coragem de me devolver aquilo que eu o havia dado há 37 anos: a vida. Hoje, recuperei minha saúde física, minha saúde mental e a alegria de viver plenamente. A palavra que melhor define este momento é gratidão”, conclui a paciente


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