Faça uma horta urbana

            *José Renato Nalini

            As emergências climáticas ganharam escala mais do que preocupante. Escassez hídrica, ondas de calor, tempestades, ciclones e tornados fazem hoje parte da rotina global. Por isso, pensar em adaptar as cidades para o enfrentamento desses fenômenos é hoje uma obrigação cidadã. Não é verdade que o Poder Público disponha de todas as condições de preparar o território municipal para que esses eventos não ocasionem mortes e prejuízos irreparáveis.

            Algo que pode parecer insignificante, mas que adquire relevância no trato de uma questão que atinge e interessa a todos, é a criação e fortalecimento de hortas urbanas. Elas atendem a um conjunto sólido de finalidades. Áreas que estão ociosas, que servem para despejo de lixo, para a prática de ilícitos, para enfear a cidade, podem ser reaproveitadas. O envolvimento da comunidade fortalece os laços de pertencimento, necessários à implementação da prometida Democracia Participativa, uma promessa implícita na Constituição Cidadã de 5.10.1988.

            A exploração desses espaços pode atender à necessidade dos mais vulneráveis, mudar os hábitos de consumo de uma geração que consome ultraprocessados e desenvolve anomalias como a obesidade, a diabete e outras comorbidades. Verdadeira transformação urbana pode ser propiciada se essa política de disseminação das hortas urbanas for adotada em todos os municípios brasileiros.

            Para ajudar quem se entusiasmar com a ideia, existe uma cartilha chamada “Hortas Comunitárias e Território Urbano: Educação, Políticas Públicas e Transformação”. Ela apoia a criação e fortalecimento dessas hortas e serve de guia para a construção e aprimoramento participativo de políticas públicas voltadas a essa experiência. Enfrenta, de forma singela e direta, os temas da importância da participação popular, da soberania alimentar, da agroecologia e da Justiça Climática. Tudo pode ser considerado pilar essencial para a necessária transformação dos territórios urbanos e fortalecimento da vida comunitária.

A Cartilha foi desenvolvida por meio do Projeto “Corredor Caipira: Conectando Paisagens e Pessoas, iniciativa da Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz e Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão Universitária em Educação e Conservação Ambiental. O patrocínio foi do Programa “Petrobrás Socioambiental”, com o objetivo de unir comunidades, movimentos sociais e instituições para fortalecer práticas coletivas de cuidado com a terra, valorizar a cultura local e construir vínculos sólidos entre as pessoas e seus territórios.

Sempre gosto de lembrar que o Professor de Introdução ao Estudo do Direito André Franco Montoro, em suas aulas na PUC-SP, enfatizava que “ninguém nasce na União, nem no Estado”. As pessoas nascem na cidade, no município. E é aí que devem desenvolver suas potencialidades, até que atinjam a plenitude possível, rumo à perfectibilidade. Vocação natural de cada ser humano.

Convivência, aprendizado e biodiversidade, são os três eixos que inspiraram o “Corredor Caipira” e esse projeto de restauração ambiental e educação ecológica deveria incluir outros municípios, além dos dezoito iniciais, na região de Analândia a Botucatu. Os frutos já são tangíveis. Aumentou o deslocamento de animais silvestres, a dispersão de sementes e o fluxo gênico entre populações isoladas, o que é vital para a saúde do ecossistema da Mata Atlântica. Além disso, busca promover o reflorestamento com a implementação de hectares de florestas e sistemas agroflorestais, contribuindo para combater as mudanças climáticas e recuperar nascentes e recursos hídricos.

A Cartilha Digital é gratuita e pode ser obtida no site da Esalq, a prestigiada Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”. Não sei porque ainda não se lutou, em nossa cidade, para uma unidade vinculada à Esalq, que poderia ocupar aquela área que o Governo do Estado quer vender para loteamentos, em vez de dar a adequada utilização.


*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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