Comer antes que acabe



            *José Renato Nalini

            Embora tenhamos sido abençoados ao nascer no país que detém a maior biodiversidade do planeta, nós nos viciamos em costumes alheios e nos alimentamos mal. As crianças, desde cedo, se acostumam com esses salgadinhos que lembram isopor. Refrigerantes artificiais e repletos de substâncias químicas. Carne vermelha em abundância.

            Pelo prazer do consumo, esquecemos que os animais são alimentados com rações artificiais. E é muito esquisito que no Brasil haja mais gado do que gente. Os humanos não são carnívoros.

            Por isso é que certos alimentos, de tão esquecidos, vão sendo condenados à extinção. Ainda bem que existem projetos como a Arca do Gosto, do movimento Slow Food. Um catálogo de ingredientes destinados a desaparecerem, se não corrermos logo atrás.

            Regina Célia Pereira, no “Estadão”, nos fornece a relação de dez alimentos que devemos prestigiar. Dizem muito de nossa cultura e de nossa brasilidade.

            O primeiro é araruta. Aliada da digestão. Farinha finíssima de sabor e aroma delicados. Quando criança, cheguei a comer biscoitos e pães de araruta. Onde foram parar essas receitas?

            O segundo é o Cambuci, produto do cambucizeiro, nativo da Mata Atlântica. Sucesso em sorvetes, geleias, molhos para carne e até para enriquecer a cachaça. Mel de abelhas: jataí, mandaçaia, munduri, são abelhas sem ferrão ou nativas. O mel produzido por elas é menos doce, mais líquido. Nos Estados Unidos, os herbicidas estão acabando com as abelhas.

            Buriti é a árvore da vida. Dessa palmeira tudo se aproveita. Óleo para a pele, e seu betacaroteno fornece vitamina A. Guariroba é um palmito de gosto amargo. Dá um tom especial a saladas e cria contrastes de sabor.

            O palmito juçara é também nativo da Mata Atlântica. O extrativismo clandestino o condenou à extinção. Pois ao contrário da pupunha e do açaizeiro, que rebrotam, a juçara morre quando cortada.

            Pimenta rosa, com propriedades cicatrizantes, o pinhão, semente da araucária, o umbu, contra doenças ligadas ao envelhecimento e a uvaia, cheia de vitamina C, completam a lista.

            Mas há outros vegetais maravilhosos que também estão destinados ao desaparecimento, se não cuidarmos de valorizá-los. Vamos fazer isso?

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.    


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