*José Renato Nalini
O título poderia ser “Tragédia
parlamentar”. Mas, pensando em alguns Parlamentos, é “paralamentar” mesmo.
A tragédia não é só o despreparo, a
prevalência dos interesses personalíssimos, o esquecimento do bem-comum e da
sociedade que sustenta um aparato cada vez mais custoso. Gasto incompatível com
o produto ofertado. Mas falo de tragédias micro, bem frequentes na História do
Legislativo tupiniquim.
Algumas já foram completamente
esquecidas. Como o homicídio do Deputado Sousa Filho pelo Deputado Simões
Lopes, no próprio recinto da Câmara Federal, então no Rio de Janeiro. Isso
ocorreu em 26 de dezembro de 1929, há quase um século. Quem é que se lembra
disso?
Uma testemunha presencial foi o
acadêmico Humberto de Campos, então também deputado federal. Logo em seguida ao
assassinato, ele, mais Afrânio Peixoto, Homero Pires, Machado Coelho e outros
deputados estiveram na Polícia Central, para fazer o relato do crime.
Seu depoimento diz que estava a
conversar com o ex-Deputado José Eduardo de Macedo Soares, quando ouviu uma
altercação de um grupo em pé, junto à primeira fila de assentos. Ouviu a voz do
Deputado Simões Lopes, que protestava e responsabilizava a maioria parlamentar
pelos distúrbios ocorridos momentos antes na rua, diante do prédio da Câmara.
O Deputado Sousa Filho retrucou
alguma coisa e levou um soco de seu colega Simões Lopes. Nisso, um grupo passou
a segurar os contendores. Mas Sousa Filho já levava bengaladas de um rapaz
identificado como filho de Simões Lopes.
O agredido conseguiu se apoderar de
um pedaço da bengala com que fora atingido e partiu em direção ao filho do
agressor. Nisso, Simões Lopes, que se libertara dos que o tentavam segurar,
sacou do revólver e já disparou. Embora
Humberto de Campos tentasse impedir, o homicida prosseguiu. A vítima ficou
deitada no chão e Simões Lopes disparou a arma a queima roupa. Sousa Filho quis
se levantar, cambaleando, vindo a cair morto logo em seguida.
Para Humberto de Campos, Simões
Lopes matou Sousa Filho com ferocidade. Matou-o no chão, a menos de um metro
entre seu corpo e o cano do revólver. Encontrou-se com o homicida na Polícia.
Acompanhavam-no Evaristo de Morais e Plínio Casado. “O Sousa morreu”, diz
alguém.
- “Morreu? Não sabia!”, exclamou sem
grande emoção. Uma tragédia parlamentar, na verdade, paralamentar...
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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