Por Patricia Punder, advogada e CEO da Punder Advogados
Dizer o óbvio, no ambiente corporativo, deixou de ser algo natural, passando a ser evitado em muitos casos, e não por desconhecimento, mas pelo desconforto que provoca. Existe uma tendência recorrente de substituir a objetividade por construções mais aceitáveis, como se a forma pudesse neutralizar o conteúdo.
Ao longo da minha atuação, tenho observado um padrão que se repete: o afastamento da clareza justamente quando ela exige posicionamento. O problema não está na falta de informação, mas na escolha de não nomeá-la como ela é.
Processos que não funcionam deixam de ser tratados como falhas e passam a ser descritos como algo que “pode evoluir”, fazendo com que problemas concretos virem “pontos de atenção”, onde situações que exigiriam ação imediata são deslocadas para um campo mais difuso, onde a urgência simplesmente desaparece.
E, nesse movimento, algo importante acontece: a linguagem deixa de ser instrumento de gestão e passa a funcionar como mecanismo de proteção, não é só uma escolha de palavras, é uma forma de evitar o enfrentamento direto, uma tentativa de lidar com a consequência sem assumir a causa. Dizer que um processo não funciona exige mais do que técnica, exige disposição para olhar o problema de frente e, muitas vezes, olhar também quem deveria ter evitado que ele chegasse até ali.
Por isso, a substituição da objetividade por termos mais suaves não é inocente, ela cumpre a função. Protege relações, preserva estruturas e, em muitos casos, evita a atribuição clara de responsabilidade. Mas a que custo? Ao suavizar o conteúdo, a responsabilidade se dilui; ao evitar a nomeação precisa, a capacidade de correção se enfraquece; ao adiar o enfrentamento, a não-decisão se torna prática. Não é uma questão de semântica, é governança.
Há ainda outro elemento que merece atenção, a sofisticação da linguagem como forma de distanciamento, que são expressões em inglês, construções excessivamente elaboradas, termos que soam técnicos, mas que, na prática, afastam a conversa do ponto central.
Não é raro ver problemas sendo descritos de forma cada vez mais complexa, justamente para não serem enfrentados de forma direta. No fundo, a pergunta é simples: por que é tão difícil dizer o que precisa ser dito? As respostas são conhecidas, desconforto com o conflito, receio de exposição, proteção de interesses, dificuldade de responsabilização. Mas, independentemente da origem, o efeito é o mesmo.
A organização passa a operar em um espaço em que os problemas são reconhecidos, mas não enfrentados com a clareza necessária, onde se mantém a aparência de controle enquanto as decisões são continuamente postergadas.
Ao evitar a objetividade, perde-se algo essencial, que é a definição de quem decide, quem assume e quem responde. Sem isso, a governança deixa de estruturar responsabilidade e passa a funcionar como um sistema de acomodação.
Falar o óbvio não é excesso de franqueza, é requisito mínimo de integridade organizacional. Porque, no fim, enfrentar o problema exige mais do que descrevê-lo bem, exige encará-lo como ele é.
Enquanto o óbvio precisar ser suavizado para ser aceito, os problemas continuarão sendo administrados na forma e não enfrentados na essência. Nesse cenário, a governança não falha por falta de estrutura, mas por falta de disposição para dizer, com clareza, aquilo que já é sabido.
Sobre Patricia Punder
Partner e fundadora do escritório Punder Advogados no modelo de negócios “Boutique”, une excelência técnica, visão estratégica e integridade inegociável na advocacia. www.punder.adv.br
- Advogada, com 17 anos dedicados ao Compliance;
- Atuação nacional, América Latina e mercados emergentes;
- Reconhecida como referência em Compliance, LGPD e ESG;
- Artigos publicados, entrevistas e citação em matérias de veículos renomados, como Carta Capital, Estadão, Revista Veja, Exame, Estado de Minas, entre outros, tanto nacionais quanto setorizados;
- Nomeada como perita judicial no caso Americanas;
- Professora na FIA/USP, UFSCAR, LEC e Tecnológico de Monterrey;
- Certificações internacionais em compliance (George Whashington Law University, Fordham University e ECOA);
- Coautora de quatro livros de referência em compliance e governança;
- Autora da obra “Compliance, LGPD, Gestão de Crises e ESG – Tudo junto e misturado – 2023, Arraeseditora.

Comentários
Postar um comentário