Comunidade tradicional do Cerrado lança material didático sobre saberes do território


"Território que Ensina: Saberes do Cerrado na Escola" leva para as salas de aula as histórias e os saberes das comunidades tradicionais do Cerrado 

 

 


Com o objetivo de proteger o Cerrado e valorizar a identidade dos povos que vivem no bioma, a Associação Comunitária dos Pequenos Criadores de Fecho de Pasto de Clemente (ACCFC), na Bahia, lança o livro “Território que Ensina: Saberes do Cerrado na Escola”.

 

O material foi desenvolvido a partir da proposta de levar para as escolas os saberes do Cerrado. Para a elaboração da obra, foram realizadas oficinas com organizações sociais, professores, estudantes e comunidades de Fundo e Fecho de Pasto da região de Correntina (BA). O resultado é o que os próprios autores descrevem como um mapa afetivo e pedagógico: uma ferramenta para o reconhecimento do território como sala de aula viva, a valorização da identidade dos povos do Cerrado e o cultivo do respeito pelas origens, crenças e práticas ancestrais.

 

Elaborado pela pesquisadora e professora da rede municipal Raquel da Costa Barbosa, que é originária de uma comunidade tradicional, o material é destinado a professores e alunos da Educação Infantil ao 9º ano do Ensino Fundamental.

 

A proposta é que o livro seja incorporado ao planejamento pedagógico das escolas sem substituir o currículo oficial, mas enriquecendo o ensino com referências do próprio território. “Ele não está desconectado do planejamento do professor. Se o currículo exige que o aluno do quinto ano compreenda o gênero textual biografia, ele vai aprender biografia, mas a partir da história de uma parteira da comunidade”, explica Raquel.

 
O livro está organizado em três unidades temáticas que abordam questões ambientais que atingem todo o planeta: água, meio ambiente e território. As unidades seguem o calendário escolar e se ancoram em datas simbólicas: o Dia Mundial da Água (22 de março) e o Dia Internacional de Luta Contra as Barragens (14 de março) orientam a primeira unidade; o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho), a segunda; e o Dia Nacional do Cerrado (11 de setembro) e o Dia da Consciência Negra (20 de novembro), a terceira.

 

Disputa na sala

 

De acordo com o coordenador da publicação e sócio da ACCFC, Eldo Moreira Barreto, o que motivou a criação do “Território que Ensina: Saberes do Cerrado na Escola” foi a necessidade de crianças, adolescentes e jovens das comunidades tradicionais da região refletirem sobre si e sobre o espaço em que vivem. Mas há também um contexto amplo e urgente, como a crescente influência do agronegócio nos conteúdos escolares.

 

Em reportagem publicada pelo Aos Fatos, organização jornalística dedicada ao combate à desinformação, o mercado editorial tem sofrido pressão para retirar dos livros escolares conteúdos considerados negativos para o agronegócio.

 

A professora Raquel da Costa Barbosa vai além e aponta que materiais didáticos produzidos pelo setor já chegam às escolas da região há anos, e segundo ela, muitas vezes com boa apresentação visual, premiações para alunos e contrapartidas às instituições de ensino. “Do ponto de vista pedagógico, esses materiais são bem elaborados. Mas do ponto de vista ideológico é que a gente precisa discutir. Eles entram pela porta da frente”, alerta. “Nós precisamos disputar por dentro da escola.”

 

Eldo completa: “É um contexto de disputa e de negação da identidade dos territórios tradicionais. O agronegócio produz material didático para as escolas enquanto as crianças, os jovens e toda a comunidade, que são os sujeitos desse espaço, ficam sem se ver representados.”

 

Identidade como conteúdo

 

Para trazer a comunidade para dentro das páginas, o livro apresenta cinco biografias de moradores reais das comunidades: uma parteira, uma benzedeira, um vaqueiro que se tornou líder na luta pela terra, uma mulher que uniu fé e militância política e uma liderança quilombola que representou o Brasil em encontros internacionais de mulheres camponesas.

 

“Quando o estudante se enxerga no material, ele passa a entender que aquela cultura é importante. A gente precisa trazer uma ideia de valorização para que essa criança, desde a educação infantil, consiga se reconhecer e reconhecer a importância da sua identidade”, diz Raquel.

 

Eldo reforça a visão de Paulo Freire que embasa o projeto. “Não tem como avançar sem trabalhar a educação a partir dos saberes de cada sujeito”, pontua. “A gente espera que professores e estudantes identifiquem nesse material a possibilidade de aprofundar e refletir sobre seus espaço, sua vida, seu local, e ao mesmo tempo refletir sobre o mundo e outras regiões”.

 

Além do Cerrado

 

Os idealizadores do material acreditam que a experiência pode inspirar iniciativas semelhantes em outros biomas e regiões do Brasil. “O que norteia são os temas centrais: água, território, cultura. Esses temas podem ser adaptados com os elementos de cada região”, diz Eldo.

 

O próximo passo da ACCFC é dialogar com as secretarias de educação da região para que o material chegue formalmente às escolas, acompanhado de formação para os professores. O livro já está disponível gratuitamente para download no site do ISPN.

 

O livro

 

“Território que Ensina: Saberes do Cerrado na Escola” é uma realização da Associação Comunitária dos Pequenos Criadores de Fecho de Pasto de Clemente (ACCFC), em parceria com o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), com apoio do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), do Small Grants Programme (SGP) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

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