As coisas têm nome



            *José Renato Nalini

            As palavras têm força. Conseguem seduzir, convencer, empolgar. E, nada obstante a riqueza vocabular da sinonímia, cada coisa tem de ser chamada pelo seu nome.

            É interessante observar que a recente aprovação do Plano Clima quase não chega a termo, porque o Ministério da Agricultura ameaçou barrar a proposta. Isso porque ali se prevê a obrigação de reduzir o desmatamento.

            É fato notório, dispensa comprovação, o de que o Brasil era uma floresta praticamente intocada quando os portugueses aqui chegaram em 1500. A partir daí, começou a devastação. O extermínio da cobertura vegetal, para sustentar os arroubos da Corte. Primeiro o pau-brasil, depois as terras foram destinadas ao cultivo da cana-de-açúcar. Pouco sobrou de nossos biomas.

            O custo é a mudança climática, algo que nada tem a ver com iniciativa da natureza, mas é consequência da insensata utilização da terra. É urgente a restauração da flora, sob pena de convertermos o País em terra árida. Afinal, já somos bem eficientes na construção de desertos.

            Ninguém nega que o agronegócio seja hoje a “salvação da lavoura”. Mas se a devastação continuar, logo o clima responderá com a redução das chuvas e consequente e drástica diminuição da produtividade.

            O Plano Clima deveria ser entregue antes da COP30. O Ministério da Agricultura não concordou com o verbete “desmatamento”. Substituiu-se por “supressão da vegetação”. Esse alívio não terá reflexo na continuidade do ato de extermínio da biodiversidade, no dizimar das matas, no plano eficiente do projeto “terra arrasada”, que vai muito bem, obrigado.

            O que mudou? Nada. Não é por mudança de verbete que a coisa deixa de ser feia. É como dizer “entrou em óbito” em vez de “morreu”. Qual a diferença? A diferença é que a inconsequência e insensibilidade da maior parte do Governo Federal reforça o negacionismo, que é a cada momento rechaçado pelas duras e inevitáveis respostas da natureza. Ela está muito zangada, ressentida com o cruel bicho-homem. E tem toda a razão.

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.


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