Abolir a miséria

 



            *José Renato Nalini

            O Brasil desigual, que tem na Constituição o objetivo nacional permanente de acabar com a miséria, precisa investir muito nessa cruzada. Não é fácil convencer aqueles que têm excesso, a abrir mão do mínimo em favor de quem não tem nada.

            Talvez um bom exemplo seja resgatar a cruzada dos abolicionistas. Imagine-se o que foi lutar contra a plutocracia que explorava mão-de-obra escrava e que contabilizava em seu patrimônio esses indivíduos sem nome, sem RG, sem título de eleitor e desprovidos da própria categoria humana. Abririam mão desse fator de enriquecimento?

            Os Joaquim Nabuco, os André Rebouças, os José do Patrocínio foram mais do que heróis. Foram verdadeiros apóstolos.

            Ao rememorar sua luta pela emancipação do elemento servil, André Rebouças escreveu: “Encheriam volumes os exemplos de abnegação evangélica, dados pelos abolicionistas durante os dez longos anos de 1879 a 1888. Fizemo-nos empresários de espetáculos para o público a quinhentos réis por pessoa. Varremos teatros e pregamos cartazes. Éramos simultaneamente redatores, repórteres, revisores e distribuidores. Leiloeiros nas quermesses. Propagandistas por toda a parte: nas ruas, nos cafés, nos teatros, nas estradas de ferro e até nos cemitérios, junto aos túmulos de Paranhos, de Ferreira de Menezes, de Luiz Gama e de José Bonifácio”.

            Mas valeu a pena! Ele culmina por exclamar: “Afinal, conseguimos conquistar, um a um, o militarismo, o parlamentarismo, a teocracia e a monarquia. A 13 de maio de 1888 estava tudo consumado: sem ferro, sem fogo e sem sangue, na maior expansão de alegria e de contentamento. Entre gritos de júbilo, em um delírio de entusiasmo, que dez dias de festas não puderam satisfazer. Jubileu de Redenção e de Reparação. De Liberdade e de Igualdade, como jamais viu a Família Humana”.

            Ora, não se enxerga, na sociedade contemporânea, o mesmo fervor para combater a exclusão e a invisibilidade de milhões de brasileiros. Onde estão os Joaquim Nabuco, os André Rebouças, os José do Patrocínio do século XXI?

            Seremos obrigados a reconhecer, com vergonha e brio, que desapareceu o heroísmo, a doação de si, o idealismo e a caridade do coração de quase todos os homens?

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo   

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