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Violência interpessoal amplia vulnerabilidade psíquica de forma desigual e acende alerta para políticas públicas e cuidado culturalmente sensível
A violência não termina no momento da agressão. Ela segue agindo no corpo, na memória e na saúde mental, sobretudo entre jovens negros e indígenas. Estudo publicado em abril de 2026 na revista científica Cambridge Prisms Global Mental Health, conduzido por pesquisadoras da Fiocruz Bahia em parceria com a Universidade de Harvard, mostra que, após episódios de violência interpessoal, o risco de suicídio é 10,7 vezes maior entre jovens indígenas e 3,14 vezes maior entre jovens negros. A pesquisa analisa informações de mais de 9 milhões de jovens brasileiros ao longo do tempo e reforça o peso das desigualdades raciais na produção do sofrimento psíquico.
Os dados dialogam com outros levantamentos da própria Fiocruz sobre a juventude no Brasil. Em informe epidemiológico divulgado em 2025, a instituição aponta que jovens negros e indígenas concentram os maiores riscos de morte por violências e acidentes no país. As taxas chegam a 227,5 por 100 mil habitantes entre jovens negros e a 177,9 por 100 mil entre indígenas.
No campo da saúde mental, o cenário também preocupa. A Fiocruz destaca que o suicídio atinge de forma mais intensa a população indígena, com taxa geral de 62,7 por 100 mil habitantes. Entre homens indígenas de 20 a 24 anos, o índice chega a 107,9 por 100 mil, um dos mais altos registrados no país.
O tema ganha ainda mais urgência porque o suicídio já figura entre as principais causas de morte na juventude. Segundo a Organização Mundial da Saúde, ele é a quarta causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos no mundo. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que o suicídio ocupa a terceira posição entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta entre jovens de 20 a 29 anos.
Para Silvia Muiramomi, socióloga e pesquisadora indígena, os números expõem uma ferida histórica que segue ativa no cotidiano de muitos territórios. “Quando a violência atinge jovens indígenas e negros, ela não chega sozinha. Ela vem acompanhada de racismo, apagamento, desamparo institucional e perda de pertencimento. Falar de saúde mental nesses contextos pede escuta real, respeito à história desses povos e políticas que enxerguem a vida para além da estatística.”
Êdela Nicoletti, psicóloga e referência no ensino de DBT no Brasil, afirma que a exposição à violência pode desregular profundamente jovens que já vivem sob pressão constante. “A violência interpessoal rompe a sensação de segurança e pode manter o organismo em estado de alerta permanente. Em adolescentes e jovens, isso afeta regulação emocional, percepção de futuro, vínculo social e capacidade de pedir ajuda. Quando esse sofrimento encontra racismo e invalidação, o risco aumenta e a resposta precisa ser mais rápida, mais qualificada e mais humana.”
Vinícius Dornelles, integrante da diretoria da Associação Mundial em DBT, afirma que a prevenção precisa ir além do indivíduo. “Precisamos parar de tratar o suicídio apenas como evento individual. Há contextos que adoecem, silenciam e isolam. Quando a violência interpessoal se soma à desigualdade racial, o sofrimento deixa de ser exceção e passa a seguir um padrão social. Prevenir também significa enfrentar o ambiente que produz desamparo.”
Na prática, o estudo reforça a necessidade de políticas públicas integradas entre saúde mental, educação, assistência social e proteção à juventude, além do enfrentamento direto ao racismo estrutural. Também acende um alerta para a importância de abordagens culturalmente sensíveis, especialmente em comunidades indígenas e periferias urbanas, onde o sofrimento psíquico convive com violência recorrente e acesso limitado ao cuidado.
Vinícius Dornelles - Psicólogo e especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT), Vinícius Guimarães Dornelles atua na formação e disseminação da abordagem no Brasil e na América Latina. Integra a diretoria da World Dialectical Behavior Therapy Association, entidade internacional responsável pela promoção e desenvolvimento científico da DBT no mundo. Possui formação em DBT pela Behavioral Tech, em Seattle, centro internacional de referência na abordagem criada pela psicóloga norte-americana Marsha Linehan. Também é especialista em Terapia Dialéctico Conductual pela Universidade de Luján, na Argentina, e em Terapia Cognitivo-Comportamental e tratamentos baseados em evidências para transtorno de personalidade borderline pela Fundación Foro. Vinícius dedica sua atuação clínica e acadêmica ao tratamento de transtornos emocionais complexos, com foco em regulação emocional, comportamento suicida e autolesão. Atua ainda na formação de psicólogos e psiquiatras em DBT no Brasil, contribuindo para a expansão da abordagem baseada em evidências na saúde mental.
Êdela Nicoletti - Psicóloga e especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT), Êdela Aparecida Nicoletti é uma das pioneiras na formação de profissionais brasileiros na abordagem criada por Marsha Linehan. Possui especialização em DBT pela Behavioral Tech, em Seattle, além de formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e certificação internacional para tratamento de transtorno de estresse pós-traumático. Atua como diretora do Centro de Terapia Cognitiva Veda e dedica-se à formação e supervisão clínica de profissionais da saúde mental. Êdela também integra programas internacionais de ensino e é professora honorária da equipe formadora do Instituto Nora Cavaco. Sua atuação concentra-se no desenvolvimento de protocolos clínicos, capacitação de terapeutas e disseminação da DBT como abordagem baseada em evidências para o tratamento de transtornos emocionais complexos.
DBT Brasil - A DBT Brasil é uma iniciativa dedicada à formação, disseminação científica e aplicação clínica da Terapia Comportamental Dialética (DBT) no país. A abordagem foi desenvolvida pela psicóloga norte-americana Marsha Linehan e é considerada uma das terapias com maior evidência científica para o tratamento de transtornos emocionais complexos. A instituição atua na capacitação de psicólogos e profissionais da saúde mental por meio de cursos, treinamentos e programas de especialização baseados nos protocolos internacionais da DBT. A formação contempla habilidades centrais como regulação emocional, tolerância ao estresse, efetividade interpessoal e mindfulness aplicado à vida cotidiana. Além da formação profissional, a DBT Brasil também se dedica à produção de conteúdo educativo e à conscientização pública sobre saúde mental, contribuindo para ampliar o acesso a tratamentos baseados em evidências e reduzir o estigma associado a transtornos psicológicos.
Silvia Muiramomi - Socióloga e pesquisadora indígena, terapeuta integrativa e liderança indígena do povo Guayana-Muiramomi, nativos do ABC Paulista. Especialista em saúde mental e no diálogo entre saberes tradicionais e contemporâneos, atua há mais de 15 anos promovendo projetos culturais, educacionais e terapêuticos que valorizam as raízes indígenas e a pluralidade étnica brasileira. É idealizadora do projeto Oka de Saberes e Memórias Indígenas e presença ativa em eventos, documentários e espaços de defesa dos direitos dos povos originários, onde combina sua experiência acadêmica com a vivência comunitária para fortalecer identidades e criar pontes de cuidado e pertencimento.

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