*José Renato Nalini
A primeira impressão nunca falha. Ou
isso é lenda?
Conta Humberto de Campos que certa
feita, na redação de “O Imparcial”, jornal em que publicava seus artigos, viu
uma figura muito insólita. Nervoso, alourado, olhos escuros e bigode grosso e
curto, “que discute segurando o contendor pela gola, pela manga, pelos botões”.
Quando ouviu alguém falar em Humberto de Campos, desdobrou-se em atenções:
- O senhor é o Humberto de Campos?
Confirmada a identidade, atirou-se a
abraçar quem acabara de conhecer, com excessivo entusiasmo, tanto que
atropelava as palavras:
- Olhe, eu tenho vindo aqui para
conhecê-lo em pessoa. O senhor é um homem a quem eu admiro e a quem eu temo.
Antes: o senhor é dois homens: um, o destruidor implacável, o jornalista que
mata, aniquila, destrói o adversário; outro, o poeta, o escritor, o homem de
erudição. Eu quero ser amigo de ambos!
E ficou intermináveis minutos a
gastar louvores que constrangeram o alvo dos encômios. E tentando voltar ao
assunto em discussão, viu-se logo objeto de palmadas nos joelhos, toques no
braço, nas mãos, no pescoço e na face do interlocutor. Em seguida, a intimidade
já o levou a ter suas golas puxadas, os botões segurados para enfatizar as
exclamações do recém-amigo. E expressões nem sempre utilizadas no primeiro
contato: vem cá, filho, meu bem, querido...
Só mais tarde é que Humberto de
Campos vem a saber que o seu mais novo amigo íntimo é Afrânio Peixoto. Na
verdade, Júlio Afrânio Peixoto, (1876-1947) médico, político, professor,
crítico literário, ensaísta, romancista e historiador brasileiro. Ocupou a cadeira
sete da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 7 de maio de
1910 e fundou a Academia Brasileira de Filologia. Contemporâneo e confrade,
portanto, de Humberto de Campos Veras (1886-1934).
Embora dez anos mais moço, Humberto
de Campos faleceu treze anos antes de Afrânio Peixoto. Será que a primeira
impressão permaneceu ou se modificou durante o convívio?
*José Renato Nalini é
Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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