*José Renato Nalini
Só o ser humano consegue mentir.
Deliberadamente falsear a verdade. Mania, tara, doença? Com a palavra
psiquiatras, psicólogos e psicoterapeutas.
Mas esse hábito persiste e há quem
chegue a mentir com tanta convicção, que acredita na mentira como se fora
verdade.
Coelho Neto era vítima de
mentirosos. De um, em particular. Vizinho seu, o rapaz chegava a bater à sua
porta, apenas para pregar-lhe mentiras. O escritor chega a mencionar o nome do
mentiroso contumaz: Jaques Raimundo, professor em escola pública, irmão de um
entomologista de renome, Benedito Raimundo.
A mentira alcançou os píncaros.
Jaques foi um dia à casa de Coelho Neto para convidá-lo, em seu nome e no da
esposa, para servir de padrinho a um filho recém-nascido. Coelho Neto,
desvanecido, aceitou. Toda vez que se encontrava com o futuro compadre,
perguntava pelo afilhado. Jaques dava notícias circunstanciadas, descrevendo
até as particularidades das moléstias de que o pequeno havia sido acometido.
Com o passar do tempo, ao perceber
que o batizado era sempre adiado, Neto descobriu que Jaques não tinha filho
nenhum e sequer era casado. Quando comentou o caso com João Ribeiro, este
contou que Benedito Raimundo era ainda mais mentiroso do que o irmão. Certa
tarde, ao se despedir de João Ribeiro, Benedito disse: - “Desculpe-me não o
levar em casa no meu automóvel. É que eu gostava do meu carro, mas um dia, ao
sair da garagem, passei por cima de um cachorrinho de estimação de minha
mulher. Por isso, vendi o carro!”.
Vizinhos de Benedito contaram a João
Ribeiro que ao chegar em casa, Benedito grita, para que a vizinhança ouça: - “Ó
José...Joaquim, Manuel! ... Vocês não viram que a égua está sem alfafa? Como é
que se deixa um animal puro-sangue sem cuidado, sem o tratamento que ele
merece?!”
Contudo, no quintal do Benedito não
dá para criar sequer uma galinha. Mentir é uma compulsão? Tem tratamento? Tem
cura?
*José Renato Nalini é
Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo
das Mudanças Climáticas de São Paulo.

Comentários
Postar um comentário