*José Renato Nalini
As Academias de Letras são
instituições que, se seguirem o modelo francês, de Richelieu e criada no século
XVII, sob inspiração do Liceu Akademus de Platão, terão quarenta cadeiras
vitalícias. Ou seja, apenas “Academias meia-boca” é que ultrapassam a cifra de
dez dezenas e também abrem vaga de pessoas vivas.
Mas as Academias “de verdade” são
cobiçadas por intelectuais e por pessoas que se consideram intelectuais. A
crônica do “flerte” dos que pretendem ser “imortais” é muito interessante.
Para permanecer no terreno dos
“imortais que já morreram”, vamos nos recordar de que Emílio de Menezes queria
que Humberto de Campos disputasse a vaga deixada por José Veríssimo na
prestigiadíssima Academia Brasileira de Letras. Essa proposta já constara de um
artigo escrito por Raimundo Morais no Pará.
Logo surge uma candidatura forte: a
do Barão Homem de Melo, com oitenta e um anos. Emílio se encontra com Humberto
na rua do Ouvidor, em frente à Confeitaria Pascoal – que saudades do Rio
daquela época – e logo indaga: - “Então: és ou não candidato?”. Humberto
responde que não. – “Mas por que?”.
Humberto responde: - “Porque o Barão
é candidato. Trata-se de pessoa estimada e respeitada, antigo ministro, figura
histórica e, depois, com oitenta e um anos...”
- “Bem, não te incomodes...Tens que
esperar pouco”. E referindo-se ao Barão e à sua idade: - “Esse entra já com a
vaga nas costas...”
Dois anos depois, Humberto de Campos
é eleito para a Academia Brasileira de Letras, exatamente na vaga deixada por
Emílio de Menezes.
Não adianta torcer para que surjam
vagas. Elas surpreendem. Para conforto dos “imortais”, as Academias asseguram
invulgar longevidade. Seus ocupantes são como vinho bom: quanto mais antigo,
melhores.
E o recado aos candidatos: a
Academia é uma Casa muito singular. Se você quer entrar um dia nela, cumpra o
ritual: flerte, namore, noive e só depois se case. E seja delicado e elegante
para com os seus futuros confrades e confreiras. Entregue suas obras, faça visitas,
não seja inconveniente. A propósito, quando Paulo Bomfim era perturbado por
algum candidato imprudente que lhe pedia: - “Paulo, dê-me uma colher de chá!”.
Ele, imediatamente, apanhava a colherinha que estava à mesa e dizia: - “Pronto:
aqui está!”.
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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