Por José Coelho de Araújo Filho, Flávio Adriano Marques e Maria Sonia Lopes da Silva, pesquisadores da Embrapa Solos; e Josué Francisco da Silva Junior, pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros
No dia 28 de abril, comemora-se o Dia Nacional da Caatinga, uma data criada em homenagem ao ecólogo pernambucano Vasconcelos Sobrinho, pioneiro no estudo da região semiárida. Neste dia, todos devem aproveitar para refletir e se mobilizar em luta pela preservação deste bioma. Preservá-lo é garantir a base da produção sustentável para as famílias agricultoras residentes no meio rural. No entanto, isso requer iniciativas da sociedade, bem como compromissos governamentais, como o incentivo a políticas públicas conservacionistas para os solos e para a vegetação, do ponto de vista econômico, social e ambiental.
O termo “Caatinga” é de origem Tupi-Guarani e significa mata clara, esbranquiçada ou mesmo branca. Essa tonalidade de cor se destaca na estação seca, que corresponde à grande parte do ano, quando a maioria de suas espécies perde as folhas. Por outro lado, no período chuvoso, em poucos dias ocorre uma verdadeira revolução da natureza. Essa vegetação se renova, rebrotando a sua folhagem, tornando-se completamente verde e, em seguida, produz flores e frutos, que garantem a perpetuação das espécies.
A Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro com uma enorme biodiversidade, possuindo espécies únicas da fauna brasileira e vegetais de porte arbóreo, arbustivo e herbáceo. As espécies são muito bem adaptadas ao clima semiárido, cujas precipitações pluviométricas são muito irregulares no espaço e no tempo, com média anual inferior a 800 mm, mas é onde estão cerca de 12% da população brasileira (mais de 22 milhões de habitantes).
Em geral, a vegetação é o componente mais característico do bioma, reconhecendo-se duas fases: a mais seca, conhecida como Caatinga hiperxerófila e, a menos seca, denominada Caatinga hipoxerófila. Algumas espécies são indicadoras dessas duas fitofisionomias. Na primeira, destacam-se o xique-xique e a faveleira ou favela; e na segunda, a palmeira denominada popularmente como ouricuri ou licuri e o tamboril ou orelha-de-macaco. A maioria das espécies, entretanto, é comum às duas fases, como por exemplo, o marmeleiro, a catingueira, o mandacaru, o juazeiro e o angico.
A Caatinga é um bioma extremamente ameaçado e, em função do uso e ocupação sem planejamento das terras, a sua vegetação atualmente encontra-se muito devastada. Por sua vez, a combinação de ações antrópicas em áreas de solos rasos a pouco profundos, muito suscetíveis à erosão, juntamente com o desmatamento e as mudanças climáticas, conduz aos processos de desertificação, que têm sido registrados nesse bioma. Tais solos, associados à pouca cobertura vegetal, facilitam e/ou aceleram os processos erosivos e a degradação ambiental. Esses ambientes constituem núcleos de desertificação, a exemplo de Cabrobó (PE), Seridó (RN/PB), Irauçuba (CE) e Gilbués (PI). Em situação mais grave, foram recentemente constatados ambientes que já se enquadram cientificamente no contexto de climas áridos, como é o caso de uma área no norte do estado da Bahia e no oeste de Pernambuco, no Vale do Submédio São Francisco.
Ainda no contexto ambiental da Caatinga, os solos associados aos diferentes geoambientes, como chapadas, planaltos, depressões, possuem atributos morfológicos, físicos, químicos e mineralógicos muito heterogêneos. Essa heterogeneidade resulta, sobretudo, das variações do seu material de origem, como é o caso de rochas cristalinas (ígneas e metamórficas), rochas sedimentares ou sedimentos inconsolidados. Nesse sentido, onde se destacam as rochas cristalinas, como gnaisses, granitos e xistos, são desenvolvidos solos rasos (≤ 50 cm) a pouco profundos (> 50 cm e ≤ 100 cm), em geral pedregosos, como Neossolos Litólicos, Luvissolos e Planossolos, comumente utilizados com pastagem natural ou plantada.
Nas áreas onde ocorrem sedimentos inconsolidados, rochas sedimentares (como arenitos) ou alguma cobertura sedimentar sobre rochas cristalinas, predominam solos profundos (> 100 cm e ≤ 200 cm) a muito profundos (> 200 cm), como Neossolos Quartzarênicos, Neossolos Flúvicos, Latossolos e Argissolos, muito utilizados com agricultura irrigada, a exemplo do polo de irrigação do município de Petrolina (PE), ou prevalecem usos com culturas dependentes de chuvas. Por sua vez, no contexto de bacias sedimentares onde ocorrem rochas calcárias ou sedimentos ricos em carbonatos, os solos formados são, em geral, profundos e com alta a muita alta fertilidade natural, como é o caso de Cambissolos e Vertissolos, os quais reúnem excelentes propriedades para fins agrícolas, notadamente com o emprego da irrigação. Como exemplo desses solos, destaca-se o polo de irrigação no município de Juazeiro (BA), onde se conseguem as mais altas produtividades com a cultura da cana-de-açúcar no Brasil, podendo ultrapassar a marca de 200 t/ha.
No entanto, cabe destacar que, em função das condições climáticas nos domínios da Caatinga, onde a evapotranspiração é muito superior às precipitações pluviais, também ocorrem naturalmente ambientes e solos afetados por sais, isto é, solos sódicos e/ou salinos, cujo manejo merece o máximo cuidado e atenção.
Por fim, além da necessidade de conservação da vegetação da Caatinga, é imperativa a conservação do solo deste bioma, promovendo o seu uso racional, em conformidade com suas potencialidades e limitações naturais.
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