*José Renato Nalini
Digam o que disserem e as Academias
ainda excitam aqueles que ainda não as integram e querem sentir o sabor da
falaciosa imortalidade que elas garantem. Como dizia Lygia Fagundes Telles, a
secundar Olavo Bilac: “Somos imortais porque não temos onde cair mortos...”
Mas conviver numa Academia de Letras
é um exercício antropológico excitante. Há todos os tipos. A única presença
garantida é o ego superdimensionado. Todos se consideram muito especiais,
singulares, o suprassumo da espécie racional.
No mais, há os bem-humorados, os
generosos, os irritadiços, os pessimistas, os que enxergam conspiração em tudo,
os que só enxergam defeitos nos outros. Principalmente nos confrades da própria
Academia.
Isso é perene. Como dizia Humberto
de Campos em seu “Diário Secreto”: na última sessão da Academia, “com Alberto
de Oliveira a falar, em um discurso escrito, nas ‘estrelas de primeira grandeza
do céu da nossa literatura’. Com Cláudio de Souza a apresentar uma proposta que
assim começa: “Considerando que a Academia pode ser considerada...”; com
Gustavo Barroso a citar todos os autores encontrados no catálogo da Livraria
Hachette, para falar de um pobre rapaz de São Paulo; o de Adelmar Tavares a
saudar Alberto de Oliveira com palavras líricas de batizado na roça” e a pedir
para ele “um punhado de flores de nossas palmas”. Ele terminava dizendo sentir
uma tristeza tão funda, que tinha a impressão de ser a mesma da morte de um
amigo ou de um parente.
Nessa mesma tarde, ouviu de Roquete
Pinto, que se assentava a seu lado, um conselho:
- “Nós precisamos fazer aqui uma
liga contra a retórica”.
E ele enfrentava uma questão mais
grave. Pensava se as Academias sobreviveriam a tanta mediocridade. Preocupação
que não tinha razão de ser. A despeito de escolhas incríveis, inexplicáveis,
verdadeiramente surreais, as Academias sobrevivem. São um refúgio para a
discussão livre e apenas interessada em promover a cultura. Ainda bem que isso
acontece!
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

Comentários
Postar um comentário