*José Renato Nalini
A frase que serve de título para
esta reflexão é de Bernardo Carvalho, no artigo “Ian McEwan confronta seu
tempo” (Ilustríssima 22.2.26). Ele estava num voo quando um passageiro sofreu
mal súbito e morreu a bordo. Impressionou-o a frieza de grande parte dos
passageiros, que acionou seus celulares para gravar a agonia do semelhante que
perdia a vida, como se fora um espetáculo a se exibir nas redes.
É um testemunho eloquente da
enfermidade social que acomete nossa gente. Atenta ao seu próprio mundinho,
enfeitiçada até à raiz pelo poder absoluto da internet, incapaz de sentir as
angústias da Terra.
Sim, este planeta que ainda é o
único disponível, também sofre as consequências da irracionalidade humana. Fora
racional e o bicho-homem já teria banido o combustível fóssil e levado a sério
a mais do que urgente transição energética. Teria ao menos restaurado os
setenta milhões de hectares devastados pelo uso errático do solo e hoje
desertificados, naquele país que já foi a “promissora potência verde” do final
do século XX, antes de se converter em lastimável “Pária Ambiental”.
Uma sociedade civilizada não
restaria inerte, quando milhões passam fome, enquanto outros milhões
desperdiçam comida. O mundo se desfaz de um bilhão de toneladas de comida
manipulada a cada dia. São Paulo, a maior cidade do Brasil e uma das maiores do
planeta, produz a cada dia, quinze mil toneladas daquilo que chamávamos de lixo
e hoje o mundo chama de “resíduo sólido”, exatamente porque tem valor. Nas
partes civilizadas do planeta, isso gera uma considerável receita. Aqui, essas
toneladas vão continuar a ocupar territórios ambientalmente protegíveis, áreas
que deveriam se converter em jardins, bosques, parques, lagos, mas se transformam
em horrendas montanhas de lixo, em camadas que produzem chorume, se infiltram
nos lençóis freáticos e custam fortunas ao povo que as produz.
Se prestasse atenção a essas coisas,
inclusive na gravíssima escassez hídrica que nos ameaça, a população talvez
acordasse e não continuasse a vagar de forma equivocada e imbecil, em
verdadeira cegueira suicida.
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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