*José Renato Nalini
Quando falo que estamos na República
da Hermenêutica, onde a interpretação vale mais do que a letra da lei, não
estou brincando. E isso não é de hoje. Nos tempos da violência institucionalizada,
nos primórdios desse regime que destituiu o magnânimo Pedro II para instaurar
algo que até hoje procura o seu caminho, Floriano Peixoto foi um dos mais
aguerridos titulares da Presidência. Perseguia os adversários, considerando-os
inimigos. Castigava sem piedade.
Naquele tempo, quem ousava dizer a
verdade era extirpado da vida em convívio. Tinha de fugir para escapar à fúria
do tirano.
Mas os intelectuais eram corajosos e
criativos. José Patrocínio teve de escapar à sanha florianista e o jornal
“Cidade do Rio” estava sob a direção interina de Luís Murat. Havia censura
rigorosa. Olavo Bilac, um poeta boêmio, resolveu organizar um número
violentíssimo da publicação. E que todos os colaboradores, responsáveis pelo
ataque ao presidente, fugissem antes do jornal entrar em circulação.
Bem idealizado, melhor feito. Murat,
Bilac e Guimarães Passos escreveram coisas inacreditáveis contra Floriano: para
eles, não passava de assassino, ladrão, covarde e coisas equivalentes.
Assim que o jornal começou a ser
rodado nas impressoras, eles trataram de escapar. Bilac foi para a Central,
tomar um trem para Minas. Os outros dois, embarcaram a bordo de navios
estrangeiros que se achavam no porto do Rio. Horas depois da circulação da
“Cidade do Rio”, a redação foi cercada por forças do governo e o gerente foi
preso, ficando no cárcere por oito meses. E para prender Olavo Bilac, inventou
Floriano um princípio jurídico, segundo o qual o leito das ferrovias federais
nos Estados se torna território federal. Era a hermenêutica a favor da tirania.
Nada de novo, portanto, quando se torce o sentido de alguns textos sobre os
quais incidiria a regra latina “In claris cessat interpretatio”. Ou: diante de
texto claro, não precisa haver qualquer interpretação. Mas a sabedoria romana
ainda não chegou ao sistema jurídico tupiniquim.
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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