Rede socioassistencial de São Paulo acolhe mais de 990 pessoas com deficiência e fortalece trajetórias de autonomia


Com serviços especializados e ações de inclusão produtiva, a cidade amplia a proteção social e cria caminhos de recomeço para pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade


Foto: Eugênio Goulart/SECOM

Na cidade de São Paulo, mais de 990 pessoas com deficiência são atualmente acolhidas pela rede socioassistencial da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS). Mais do que garantir proteção imediata, os serviços especializados têm como objetivo promover autonomia, fortalecer vínculos e ampliar o acesso a direitos para pessoas em situação de vulnerabilidade.
 

Entre essas histórias está a de Jamilly Piton, 34 anos, acolhida na Casa Florescer (Centro de Acolhida Especial para Mulheres Transsexuais). Pessoa com deficiência física, ela encontrou na rede municipal apoio para reorganizar sua trajetória.
 

“A primeira vez que eu passei em um radiologista, ele pediu para eu desentortar meu braço”, lembra Jamilly, ao relatar situações de preconceito que enfrentou ao longo da vida.
 

Hoje, já em processo de saída qualificada do serviço de acolhimento, ela resume o caminho percorrido com simplicidade: “Pode não ser fácil no começo, mas sempre dá certo.” 
 

Histórias como a de Jamilly refletem desafios que ainda marcam a trajetória de muitas pessoas com deficiência. Na capital paulista, a vulnerabilidade social dessa população está frequentemente associada a barreiras estruturais, educacionais e econômicas.
 

Segundo dados do Cadastro Único levantados pela Coordenação de Gestão de Benefícios da SMADS (CGB), entre as 371 mil pessoas com deficiência com cadastro ativo na cidade, mais de 126 mil não possuem renda e cerca de 183 mil são aposentadas ou beneficiárias do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
 

A dificuldade de inserção no mercado de trabalho também aparece entre os fatores que agravam a vulnerabilidade. De acordo com o Censo da População em Situação de Rua (2021), 28,4% das pessoas apontam a perda de trabalho ou renda como principal motivo para estarem nas ruas. 19% das pessoas em situação de rua possuem algum tipo de deficiência.
 

Os dados educacionais também ajudam a dimensionar esse cenário. Entre as pessoas com deficiência acolhidas na rede socioassistencial, 193 não concluíram a 4ª série do ensino fundamental (19,3%) e outras 188 (18,8%) são analfabetas.
 

No outro extremo da escolarização, apenas 15 pessoas (1,5%) chegaram ao ensino superior sem concluir a graduação, enquanto 12 (1%) finalizaram o curso. Apenas uma pessoa possui especialização. O quadro evidencia desafios históricos de acesso à educação, que impactam diretamente as oportunidades de inclusão social e produtiva.
 

Para responder a essas demandas, a rede socioassistencial da cidade conta com serviços específicos voltados ao atendimento de pessoas com deficiência. Entre eles está o Serviço de Acolhimento Institucional para Jovens e Adultos com Deficiência e Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (SAIPcD – Residência Inclusiva). Serviço de alta complexidade que funciona 24 horas por dia e acolhe pessoas entre 18 e 59 anos sem retaguarda familiar ou condições de autossustentabilidade.
 

Já na proteção social de média complexidade, equipamentos como o Centro Dia para Pessoa com Deficiência (CDPcD) e o Núcleo de Apoio à Inclusão Social para Pessoas com Deficiência (NAISPD) atuam no fortalecimento da autonomia e da convivência comunitária, oferecendo apoio nas atividades de vida diária, desenvolvimento de habilidades e articulação com outras políticas públicas, como saúde, educação, transporte, esporte e cultura. Os encaminhamentos para esses serviços são realizados pelos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), após avaliação técnica.
 

Além da proteção social, a rede também trabalha para garantir caminhos concretos de autonomia. Apenas em 2025, 130 pessoas com deficiência conseguiram realizar a saída qualificada dos serviços de acolhimento. Entre elas, 51 (39%) conquistaram a moradia autônoma.
 

As trajetórias mostram que, embora os desafios sejam estruturais, políticas públicas articuladas podem abrir novas possibilidades de futuro. Ao ampliar equipamentos e qualificar o atendimento, a SMADS reforça que acessibilidade vai além da eliminação de barreiras físicas. Trata-se de garantir direitos, reduzir desigualdades e criar condições reais para que histórias de recomeço, como a de Jamilly, se tornem cada vez mais comuns.

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