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Quem é a escritora judia morta em Auschwitz citada pelo papa Leão XIV no domingo

 

Etty Hillesum, a escritora judia holandesa de 29 anos, foi morta no campo de extermínio de Auschwitz. ??


Etty Hillesum, a escritora judia holandesa de 29 anos, foi morta no campo de extermínio de Auschwitz. | Crédito: John Mathew Smit e www.celebrity-photos.com

Etty Hillesum, escritora judia holandesa morta no campo de extermínio de Auschwitz, foi citada pelo papa Leão XIV na oração do Ângelus do domingo passado. A obra espiritual de Hillesum continua inspirando fiéis e pensadores de diversas tradições religiosas.

Antes do Ângelus, o papa citou uma passagem do diário que Hillesum escreveu em Amsterdã durante a Segunda Guerra Mundial, no qual a jovem relatou sua intensa busca interior em meio à perseguição nazista.

“Às vezes eu consigo alcançá-la”, escreveu Hillesum em seus cadernos espirituais, “mas frequentemente ela está coberta por pedras e areia: Deus está, então, sepultado. É preciso, por isso, voltar a desenterrá-lo”. O papa retomou essa imagem durante a oração mariana para explicar que o encontro com Cristo desperta em cada pessoa “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”

Com essa referência, Leão XIV inseriu a experiência espiritual da jovem judia na reflexão cristã sobre a busca de Deus em meio ao sofrimento humano.

Uma voz espiritual nascida na escuridão do século XX

Nascida em 15 de janeiro de 1914, em Middelburg, Hillesum pertencia a uma família judia culta. Seu pai era professor de línguas clássicas. Durante seus anos de universidade, ela estudou direito e línguas eslavas, mas sua notoriedade viria depois de sua morte, graças ao diário que começou a escrever em 1941 por conselho de seu terapeuta, o psicólogo Julius Spier.

Nesses cadernos, escritos entre 1941 e 1943, Hillesum descreveu com extraordinária clareza a deterioração da vida judaica sob a ocupação nazista e, ao mesmo tempo, sua própria transformação espiritual. Longe de sucumbir ao desespero, sua escrita reflete uma profunda busca por significado e uma relação cada vez mais íntima com Deus.

“Há um poço muito profundo dentro de mim. E nele habita Deus”, disse ela em uma de suas passagens mais conhecidas. Seu diário tem sido frequentemente comparado ao de Anne Frank, embora seu tom seja mais introspectivo e filosófico, semelhante ao de outras grandes pensadoras judias do século XX, como Edith Stein, Hannah Arendt,

De voluntária a prisioneira

Com a intensificação da perseguição aos judeus na Holanda, Hillesum rejeitou a possibilidade de se esconder ou fugir do país. Ela decidiu ficar com sua comunidade e ajudar os deportados.

Em 1942, começou a trabalhar como datilógrafa para o Conselho Judaico e, pouco depois, tornou-se voluntária no Campo de Westerbork, o campo de trânsito de onde milhares de judeus holandeses eram enviados para campos de extermínio na Europa Oriental.m

Lá, atuou como enfermeira e como intermediária entre os prisioneiros e o mundo exterior. Graças a uma permissão especial, pôde viajar para Amsterdã diversas vezes, levando cartas e notícias dos deportados.

Em seus escritos, ela descrevia a experiência da oração com um olhar aberto para o mundo: “Há quem, para rezar, feche os olhos e se volte para o seu interior. Mas há outra maneira de rezar: abrir os olhos e olhar a vida em toda a sua maravilha, na sua dor e na sua beleza”.

Em junho de 1942, quando já circulavam notícias sobre o extermínio sistemático dos judeus, Hillesum escreveu uma de suas reflexões mais citadas: “Deus não é responsável pelo mal absurdo que infligimos uns aos outros. Nós somos responsáveis ​​perante Ele!”

A deportação e morte

Em setembro de 1943, Hillesum foi finalmente deportada com sua família para Auschwitz. Ela só tinha 29 anos. Morreu lá em 30 de novembro daquele mesmo ano.

Antes de partir, ela jogou um cartão-postal do trem, que foi encontrado por fazendeiros. Nele, ela escreveu: “Saímos do campo cantando”.

Depois da guerra, seus diários foram publicados e começaram a atrair a atenção de filósofos, teólogos e estudiosos da espiritualidade. Hoje, sua figura é cada vez mais conhecida e estudada em universidades e centros culturais.

Uma figura que também inspirou os papas

O papa Leão XIV não foi o primeiro a citar Hillesum. Em 2013, poucos dias depois de anunciar sua renúncia, Bento XVI falou dela durante uma Audiência Geral para ilustrar como, mesmo em meio à tragédia do Holocausto, uma pessoa pode descobrir uma relação profunda com Deus.

“Uma vida agitada e atormentada encontrou Deus em meio à grande tragédia do século XX”, disse o papa alemão na época.

Hoje, mais de 80 anos depois de sua morte, a figura de Etty Hillesum continua a crescer como uma referência espiritual, inclusive para os católicos.

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