Pesquisa da FGV EMAp sobre previsão de dengue é publicada em uma das revistas científicas mais importantes do mundo
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Foto: Reprodução site OMS O modelo criado ajuda o Ministério da Saúde a orientar preparação hospitalar, o planejamento de campanhas, a distribuição de recursos e as estratégias de controle do mosquito |
Artigo descreve modelo que integra a estratégia do Ministério da Saúde para enfrentamento da doença no Brasil
A cada início de ano, quando as chuvas se intensificam e o calor dá suas caras, ela volta aos holofotes. Endêmica no país, a dengue é considerada um problema de saúde pública de difícil controle, em grande parte devido à resiliência do mosquito Aedes aegypti, responsável por sua transmissão. Diante desse desafio, o pesquisador Flávio Codeço Coelho, da Escola de Matemática da Fundação Getulio Vargas (FGV EMAp) mobilizou uma equipe de pesquisadores para desenvolver um mecanismo de previsão anual capaz de indicar quando, onde e em qual intensidade devem ocorrer os casos de dengue no Brasil. O modelo passou a integrar à agenda nacional de resposta à epidemia de dengue do Ministério da Saúde do Brasil, e acaba de ser descrito em artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, da Academia Americana para o Progresso da Ciência (AAAS).
“Nosso modelo permite realizar previsões anuais, o que é fundamental para o planejamento orçamentário e para a mobilização da máquina pública. Ao antecipar onde os casos tendem a ocorrer, oferecemos aos gestores a possibilidade de reforçar unidades de saúde, assegurar diagnósticos rápidos e evitar óbitos associados a atrasos ou falhas no atendimento”, explica o pesquisador da FGV EMAp.
Como a previsão funciona
Segundo o pesquisador da FGV EMAp, prever a ocorrência da dengue não é uma tarefa simples, especialmente considerando a complexidade das variáveis que contribuem para a doença no Brasil, como: clima, mobilidade humana e dinâmica social. Dessa forma, os pesquisadores, liderados por Flávio Codeço Coelho, decidiram lançar o Desafio Infodengue-Mosqlimate Dengue 2024. A chamada internacional buscou reunir especialistas de outras partes do mundo a fim de colaborarem na construção de modelos preditivos para a dengue. Ao todo, 6 equipes de pesquisadores de 4 países (Brasil, Arábia Saudita, Espanha e Estados Unidos) se prontificaram a realizar suas previsões, tendo acesso aos dados demográficos, históricos epidemiológicos, incidência semanal da doença, variáveis climáticas (temperatura, umidade, El Niño) e análises históricas dos 5.700 municípios brasileiros.
“Nós poderíamos ter desenvolvido o trabalho apenas com nossa equipe, mas consideramos muito mais interessante reunir contribuições e expertises de diferentes partes do mundo”, explica o pesquisador da FGV EMAp, que lidera o projeto Mosqlimate, projetado para compartilhar dados e previsões sobre doenças sensíveis ao clima.
De acordo com Flávio, o desafio acabou atraindo diversos pesquisadores que se dedicam há anos ao estudo do tema. “Eles veem nesses cenários uma oportunidade de testar seus modelos em condições reais de alta complexidade”, destaca.
As equipes tiveram liberdade para utilizar os dados fornecidos e desenvolver modelos usando uma variedade de métodos, desde abordagens bayesianas até técnicas de aprendizado de máquina. O resultado mostrou que nenhum dos modelos desenvolvidos foi perfeito ou capaz de dominar as previsões em todas as áreas do país. Segundo Flávio Coelho, alguns foram particularmente eficientes para captar a dinâmica da dengue no Amazonas, por exemplo, mas não apresentaram o mesmo desempenho no Paraná. Também ficou claro que havia uma grande variabilidade entre as propostas, o que configurou uma vantagem. “Os modelos se mostraram complementares: quando um tinha dificuldade em captar determinado padrão regional ou momento da epidemia, outro conseguia oferecer uma leitura mais precisa daquela realidade”..
A saída encontrada foi combinar os modelos em uma estratégia chamada Ensemble, até então utilizada apenas em previsão do tempo e em pesquisas econômicas. Para construir esse conjunto, o pesquisador Luiz Max Carvalho, também da FGV EMAp, atribuiu uma "nota" a cada modelo, construindo um ranking para entender quais modelos funcionam melhor em quais situações, estados ou regiões específicas.
“O coração matemático por trás dos ensembles vem de um outro artigo publicado por mim e pelo Flávio em 2023, ou seja, são resultado de anos de pesquisa preparatória, tanto em dengue em si quanto em métodos matemáticos. Para mim, isso ilustra o valor da pesquisa matemática”, destaca Luiz Max.
De acordo com o pesquisador, o Ensemble permitiu gerar dois cenários para o Ministério da Saúde: um considerando um ano excepcional, como foi o caso de 2024, quando o país registrou 6,5 milhões de casos, superando o total da década anterior e outro considerando um ano comum.
Inovação em pesquisa e colaboração internacional
O pesquisador Flávio Codeço Coelho também foi um dos criadores do InfoDengue, sistema que monitora a doença e produz estimativas semanais para todo o país há mais de uma década. Contudo, o Ministério da Saúde passou a demandar projeções de mais longo prazo, capazes de orientar o planejamento estratégico antes do início das temporadas de transmissão. Foi nesse contexto que surgiu a colaboração com pesquisadores da FGV EMAp.
Desde 2024, o grupo, do qual também participa o pesquisador Luiz Max, organiza anualmente um desafio internacional de previsão epidemiológica, reunindo equipes de diferentes países para desenvolver modelos capazes de antecipar a evolução da dengue no Brasil. A iniciativa cresce rapidamente. Se em 2024 seis equipes participaram do desafio, em 2025 foram 15 grupos de pesquisa, incluindo universidades como Cornell e Imperial College London, além de instituições da Itália, Espanha e Brasil. Para este ano, a expectativa é ultrapassar 20 equipes participantes, com a incorporação dos dados do Programa Nacional de Imunizações, permitindo que os modelos considerem a proporção da população já protegida pela vacina da Dengue.
“Estamos construindo um sistema que aprende a cada ano, incorpora novos dados e amplia seu escopo para diferentes doenças. A ideia é que, no futuro, o país tenha um verdadeiro sistema integrado de previsão de arboviroses, capaz de orientar decisões estratégicas com meses de antecedência”, afirma Flávio Codeço Coelho.





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