Perita explica por que mortes em frio extremo desafiam a perícia, como no caso da brasileira no Canadá


Caroline Daitx: médica especialista em medicina legal e perícia médica

"Determinar a hipotermia como causa da morte está entre os diagnósticos mais complexos da patologia forense"

A confirmação de que o corpo encontrado em uma floresta no Canadá pertence à brasileira Letícia Alvarenga (natural de Goiânia), desaparecida desde 2023, trouxe novas respostas para um caso que mobilizou autoridades e familiares nos últimos anos. De acordo com informações divulgadas, o laudo pericial apontou que a causa da morte foi hipotermia, condição provocada pela exposição prolongada a temperaturas extremamente baixas.

A identificação foi confirmada após análise genética conduzida por autoridades canadenses, que compararam o material biológico do corpo encontrado com dados já registrados pelas autoridades migratórias dos Estados Unidos. A confirmação encerra uma etapa importante da investigação sobre o desaparecimento da brasileira, cujo corpo foi localizado em uma área de floresta isolada no território canadense.

Segundo a médica Caroline Daitx, especialista em medicina legal e perícia médica, determinar a hipotermia como causa da morte está entre os diagnósticos mais complexos da patologia forense, especialmente quando o corpo é encontrado meses depois da morte. “Na maioria dos casos, trata-se de um diagnóstico de exclusão. O perito precisa primeiro descartar outras causas possíveis, como trauma, intoxicação ou doenças preexistentes, para então considerar a hipotermia como causa mais provável”, explica.

De acordo com a médica, o processo pericial envolve a análise de um conjunto de evidências que vão além da autópsia. O primeiro elemento considerado é o contexto do local onde o corpo foi encontrado. “A circunstância de um corpo ser localizado em uma floresta isolada, em ambiente de frio intenso, já constitui um forte indicativo de exposição a temperaturas potencialmente letais”, afirma.

Durante a autópsia, os peritos buscam sinais clássicos associados à hipotermia. Entre eles estão as chamadas manchas de Wischnewski, pequenas hemorragias na mucosa do estômago, além de alterações características na coloração dos tecidos e do sangue. Em alguns casos, também pode ocorrer o chamado “desnudamento paradoxal”, fenômeno em que a vítima, já em estado avançado de confusão mental causado pelo frio, retira as próprias roupas.

A análise microscópica dos tecidos também pode revelar alterações compatíveis com hipotermia, como vacuolização de células em órgãos como rins, fígado e pâncreas, além de pequenos focos de edema e hemorragias em órgãos vitais. Paralelamente, exames bioquímicos realizados em fluidos corporais — como o humor vítreo, líquido localizado no interior dos olhos — podem identificar marcadores metabólicos que se alteram em situações de exposição extrema ao frio.

Outro desafio central no caso foi a identificação da vítima, já que o corpo foi encontrado em estado avançado de decomposição. Nessas situações, a identificação por DNA é considerada o padrão-ouro da ciência forense. Para preservar o material genético, os peritos geralmente coletam amostras de estruturas mais resistentes do corpo, como dentes ou ossos longos, especialmente o fêmur, cuja matriz mineral protege o DNA por mais tempo.

“Nos casos em que há decomposição avançada, o DNA costuma estar fragmentado. Por isso, os laboratórios utilizam técnicas modernas que analisam fragmentos menores do material genético, como mini-STRs ou SNPs, além de tecnologias de sequenciamento mais avançadas”, explica Daitx. A comparação com uma amostra de referência — seja de familiares ou de registros oficiais — permite confirmar a identidade com altíssima probabilidade.

A exposição prolongada do corpo ao ambiente também representa um obstáculo significativo para a investigação. A especialista diz que, fatores como neve, frio intenso e ação de animais podem alterar ou destruir evidências importantes. “O congelamento e descongelamento sucessivo dos tecidos, por exemplo, provoca danos celulares que podem apagar sinais característicos da causa da morte. Já a ação de animais carniceiros pode gerar lesões que, à primeira vista, se assemelham a ferimentos provocados por violência”, ressalta.

Diante dessas limitações, Daitx destaca que investigações desse tipo dependem de um trabalho multidisciplinar, que reúne perícia médica, análise do local do achado, exames toxicológicos e investigação policial. “A conclusão sobre a causa e a circunstância da morte não se baseia em um único elemento, mas na convergência de múltiplas linhas de evidência. É um processo minucioso que busca reconstruir, com o máximo de precisão possível, os últimos momentos da vítima”, afirma.

Fonte: Caroline Daitx: médica especialista em medicina legal e perícia médica. Possui residência em Medicina Legal e Perícia Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente. Atua como médica perita particular, promove cursos para médicos sobre medicina legal e perícia médica.  CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (CAEPE), Perícia Médica Popular e Medprotec. Autora do livro “Alma da Perícia”. Doutoranda do departamento de patologia forense da USP Ribeirão Preto.

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