*José Renato Nalini
O Brasil de 5.570 municípios, 5.570
Câmaras Municipais, 27 Estados, Distrito Federal, é o país da autoridade
pública. E embora a República resulte de um gesto de sublevação contra o
Império que culminou em 15 de novembro de 1889, ainda há resquícios monárquicos
no protocolo vigente.
Há uma volúpia em cercar qualquer
autoridade de afagos, elogios e vassalagem, assim como o hábito de se
considerar tudo isso algo natural. É a Corte que sobrevive, senão como farsa, com
tons evidentes de comédia.
Uma das características é a “tática
das homenagens”. Mal chega alguém a assumir um cargo considerado de relevo, e
será laureado com títulos, comendas, banquetes encomiásticos, tudo para
convencer o neófito de que ele é o maior, sem igual e sem concorrência.
O interior é também pródigo dessas
praxes e de outras que mereceriam análise antropológica. Isso já acontecia no
início do novo regime, de como é exemplo o comportamento do General Siqueira de
Menezes, que o Marechal Hermes
da Fonseca fez governar Sergipe.
Dele se dizia ser soldado honesto,
mas atrasadíssimo. Apaixonado por cinema, duas ou três vezes por semana ia
assistir um filme em Aracaju. Quando isso acontecia, era um tormento para os
espectadores. A chegar à sala de projeções, o filme era interrompido, as luzes
acesas e a orquestra atacava o hino sergipano. Quando o espetáculo recomeçava,
o público se via na contingência de assistir de novo o que já havia sito. Ainda
que a película estivesse em seu final, voltava o filme a correr, desde o
início.
O apelido do General Siqueira de
Menezes no Sergipe era “bacoa”. Por que? Nas procissões, nas festas cívicas,
nas solenidades, havia naturalmente aglomeração popular. Todos queriam se
aproximar dele, tocar nele, o que o irritava. Quando isso acontecia, ele não
pedia para qualquer subalterno afastar os esfomeados por proximidade com a
“otoridade”. Ele mesmo se levantava de sua cadeira, ou saía do seu lugar e
empurrava com suas mãos o povo, exclamando: - “Anda! ...Fasta, Fasta... Bacoa,
Bacoa! E o povo, obediente à “otoridade”, se afastava e evacuava.
Hoje as seguranças, sempre zelosas, cuidam de salvar os homens públicos do excessivo aconchego de sua legião de fãs.
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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