Os herdeiros de Barbosa e Dumont


João Guilherme Sabino Ometto*

 

O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, com quatro indicações ao Oscar 2026 e que coloca o cinema brasileiro novamente em evidência, depois do sucesso de Ainda estou aqui em 2025, reforça a qualidade da nossa arte. O mesmo se aplica à recente conquista do Grammy de Melhor Álbum de Música Global pelo disco Caetano e Bethânia ao Vivo.
 

São feitos inerentes à realidade de um Brasil protagonista em ciência, cultura, P&D e no universo corporativo. Cabe lembrar que, no início do Século XX, o médico e sanitarista Oswaldo Cruz realizou campanhas bem-sucedidas contra febre amarela, peste bubônica e varíola. Hoje, a fundação que tem seu nome é um dos centros de pesquisa biomédica mais respeitados do mundo. Na mesma constelação está Carlos Chagas, que em 1909 descobriu o parasita, o vetor e o ciclo epidemiológico da doença que leva seu nome. Tornou-se o único pesquisador da história a descrever integralmente uma enfermidade humana no mesmo estudo científico.

 

No campo das ideias e das instituições, brilhou Ruy Barbosa, jurista, diplomata, político, escritor e um dos intelectuais mais influentes da história brasileira. Figura-chave na elaboração da Constituição da Primeira República, defensor ardoroso da liberdade e dos direitos individuais, fez propostas avançadas sobre educação, reforma eleitoral e federalismo. Nossa memória também encontra Santos Dumont, inventor do avião. O físico César Lattes, participou da descoberta do méson pi, partícula subatômica essencial à física moderna, e teve papel decisivo na fundação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

 

Nosso país também tem nomes referenciais na música, como Heitor Villa-Lobos, que criou uma linguagem melódica reconhecida globalmente, além de Tom Jobim e João Gilberto, com a bossa nova e composições brilhantes. Nas letras, Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade e Graciliano Ramos estão entre os maiores escritores da História.

 

Há, também, relevantes exemplos atuais, como a astrofísica Beatriz Barbuy, da Universidade de São Paulo, reconhecida como uma das cientistas mais influentes do País, e a agrônoma e microbiologista Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa. Ela foi premiada com o World Food Prize, o “Nobel da Agricultura”, por desenvolver soluções sustentáveis em fixação biológica de nitrogênio que transformaram a produção de grãos. A Embrapa, a propósito, uma das mais avançadas instituições de pesquisa do setor no mundo, contribui muito para o êxito do agro nacional. E merecem menção as crescentes pesquisas desenvolvidas pela iniciativa privada em diferentes setores produtivos.

 

Cabe, ainda, destacar o trabalho de Roberto Rodrigues, engenheiro agrônomo e ex-ministro da Agricultura, respeitado internacionalmente. Ele liderou reformas revolucionadoras da política agrícola, ampliando o comércio exterior de produtos brasileiros e estabelecendo bases sólidas para um agro mais tecnológico e sustentável.

 

No ensino, há exemplos como o da professora Débora Garofalo, da rede municipal da cidade de São Paulo, primeira brasileira e sul-americana finalista do Global Teacher Prize, o “Nobel da Educação”. Teve reconhecimento por seu trabalho inovador com robótica e sucata em escolas públicas. A física Márcia Barbosa, atual reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ganhou o Prêmio L’Oréal-UNESCO para Mulheres na Ciência.

 

A engenheira ambiental Bárbara Gosziniak Paiva, da Universidade Federal de Ouro Preto, desenvolveu uma garrafa capaz de transformar água contaminada em potável, usando energia solar. A pesquisa que conseguiu inibir o vírus da dengue no Aedes aegypti, bloqueando sua transmissão, incluiu o engenheiro agrônomo e entomologista Luciano Moreira, da Fiocruz, entre os 10 cientistas mais influentes do mundo de 2025, segundo a revista Nature.

 

Pesquisa do brasileiro Matheus Henrique Dias, cientista sênior no Instituto do Câncer dos Países Baixos, pode revolucionar o tratamento do câncer colorretal, o segundo mais recorrente em nosso país. Ele descobriu que, em vez de tentar parar as células cancerígenas, é possível estimulá-las até que se sobrecarreguem e morram. O estudante Nuno Abílio, do curso de Ciências da Computação da Universidade Estadual de Maringá, desenvolveu programa de IA para auxiliar no diagnóstico de doenças como a malária e Mal de Chagas.

 

Ao talento dos brasileiros soma-se um grande espírito de solidariedade e fraternidade, que se observou no apoio à população da Zona da Mata de Minas Gerais, atingida por chuvas extremas. As virtudes de nossa gente mostram não haver razão para continuarmos achando que tudo lá de fora é melhor. Merecemos e precisamos ter muita autoestima e consciência de que somos capazes de transformar nossos potenciais em crescimento sustentado, patamar de renda mais elevado e bem-estar social.
 

Neste ano de Copa do Mundo, da qual, aliás, ainda somos os maiores ganhadores, podemos e devemos, com a mesma força que nos une na torcida pela Seleção, formar uma infinita corrente humana em favor de nosso desenvolvimento. Herdeiros de Ruy Barbosa e Santos Dumont, vamos voar juntos na conquista de um futuro melhor!

 

*João Guilherme Sabino Ometto é engenheiro (Escola de Engenharia de São Carlos – EESC/USP), empresário e membro da Academia Nacional de Agricultura (ANA).

Comentários