O perigo invisível nos transportes: incêndios em aviões e navios com cargas perigosas



Bilhões de produtos cruzam céus e mares todos os anos, mas entre eles há um risco iminente: incêndios e explosões causados pelo transporte de cargas classificadas como perigosas. Substâncias que podem parecer inofensivas, como baterias, solventes e gases, são classificadas, segundo normas internacionais, como materiais capazes de gerar fogo, explosão ou liberação de substâncias tóxicas se mal acondicionadas, declaradas ou manuseadas.

Falhas simples de serem evitadas, como embalagens inadequadas ou documentação incorreta, podem provocar incidentes fatais e perdas milionárias. No transporte aéreo, por exemplo, mais de 1,25 milhão de remessas de cargas perigosas são transportadas por ano, incluindo líquidos inflamáveis, aerossóis e baterias de lítio. Quando mal acondicionados, esses itens podem causar incêndios, levando a revisões constantes dos protocolos de detecção e supressão de fogo. Em especial, as baterias de lítio podem desencadear o fenômeno conhecido como thermal runaway, gerando chamas intensas e difíceis de apagar.

Além disso, relatórios do setor naval indicam que incêndios a bordo são uma das principais causas de perda de embarcação, com centenas de incidentes reportados anualmente, muitas vezes envolvendo cargas mal classificadas ou mal estocadas. Porém, o problema vai além da presença de substâncias perigosas: embalagens frágeis, declarações de risco imprecisas, falta de inspeção e ausência de sistemas de detecção e combate a incêndio aumentam drasticamente os riscos.

Riscos ampliados pela economia elétrica e digital

A popularização de veículos elétricos, scooters, dispositivos portáteis e baterias de lítio elevou os riscos nos transportes. Danificados ou mal estocados, esses itens podem entrar em thermal runaway, provocando incêndios que se alastram rapidamente, especialmente em ambientes confinados de navios ou aeronaves.

Segundo Leonardo Lopes Bezerra (foto), consultor em materiais perigosos e especialista em certificação conforme normas como DOT (EUA), ANTT, INMETRO, IATA/ICAO e IMDG Code, o problema não é a falta de regras, mas sua implementação e fiscalização. “O transporte seguro de materiais perigosos depende não apenas de normas rígidas, mas da aderência real a cada etapa da cadeia logística, da embalagem ao carregamento, da declaração à inspeção final.”, explica.

Bezerra destaca que embalagens homologadas, declarações precisas, etiquetagem correta e treinamento contínuo são tão essenciais quanto à conformidade técnica. Sem essas camadas de segurança, uma carga legítima pode rapidamente se tornar uma ameaça à vida, ao meio ambiente e ao patrimônio.

O que está em jogo

O risco de incêndios durante o transporte de cargas classificadas como perigosas vai além de perdas econômicas. Um incêndio em navio, por exemplo, pode causar contaminação ambiental, ameaçar tripulantes e comunidades portuárias e interromper cadeias de suprimentos. No transporte aéreo, mesmo um pequeno foco de fogo depende da resposta rápida de tripulações treinadas e sistemas automáticos de supressão para evitar grandes tragédias.

À medida que cresce o volume de mercadorias perigosas transitando globalmente, especialmente produtos eletrônicos e químicos, o setor enfrenta um desafio constante: garantir segurança em um sistema no qual cada contêiner e cada palete carregam riscos latentes.


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