Mulheres na ciência qualificam pesquisa e políticas públicas


por Artur Marques, presidente da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo (AFPESP).

 

No âmbito do propósito de promover a igualdade de direitos e diversidade, crucial para o advento de sociedades mais justas, inclusivas e inovadoras, é interessante notar que são crescentes o número e o protagonismo feminino nas universidades e instituições de P&D. A participação de mulheres na ciência cresceu 29% entre 2002 e 2022, segundo o relatório Em direção à equidade de gênero na pesquisa no Brasil, da Elsevier-Bori. Em 2022, quase metade da produção científica nacional já contava com pelo menos uma autora. Hoje, o País ocupa a terceira posição mundial em participação feminina na ciência, atrás apenas de Argentina e Portugal.

 

Essa transformação começa na formação. Dados do estudo Brasil: Mestres e Doutores 2024, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), mostram que, em 2021, as mulheres já eram maioria entre mestres (56,8%) e doutores (55,6%). É um dado expressivo, ao revelar que a base técnica e científica nacional conta, cada vez mais, com mulheres altamente qualificadas.

 

Apesar dos avanços, cabe ressalvar que o número de professores brancos em programas de pós-graduação nas áreas de ciências exatas, da terra e biológicas no Brasil é 12 vezes maior do que o de pretos, pardos e indígenas.

A desigualdade é ainda maior quando os dados de gênero são atrelados aos de raça. As mulheres pretas, pardas e indígenas são 2,5% do universo de professores. Os homens brancos são 60,9% e as mulheres brancas, 29,2%. Os dados são do estudo “Diversidade Racial na Ciência”, do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em parceria com o Instituto Serrapilheira. Quanto à presença de mulheres trans na ciência, não há dados concretos, mas se estima que sua participação seja inferior a 0,2%.
 

Onde há avanços, as universidades públicas e as instituições estatais têm um papel estratégico para o bem-vindo crescimento da participação feminina na ciência e o enfrentamento do desafio persistente de ampliar a diversidade étnica e inclusão de minorias. Em nosso Estado, por exemplo, temos a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), a Universidade de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o Instituto Butantan, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e numerosas instituições públicas de pesquisa de alto nível e reconhecimento internacional.

 

É gratificante observar o crescimento da presença feminina nessas instituições. Quando mulheres ocupam esses espaços de decisão e produção de conhecimento, a própria agenda das políticas públicas tende a incorporar com mais força temas historicamente negligenciados, como equidade, proteção social e enfrentamento das desigualdades. Além disso, constitui-se em exemplo forte para a sociedade, a partir da capacidade de influência da academia e do setor de P&D.

 

Há, ainda, um efeito simbólico que não pode ser subestimado. Quando meninas veem mulheres liderando pesquisas, chefiando equipes técnicas e coordenando programas públicos complexos, a mensagem é clara: o lugar da mulher também é o da autoridade intelectual e da decisão de Estado. Isso é empoderamento que se materializa em políticas, orçamentos e direitos e não apenas em discursos.

 

Valorizar a ciência no serviço público é, portanto, defender um Estado mais qualificado, menos refém do improviso e mais orientado por evidências. Estimular a presença feminina nesse espaço é promover políticas públicas mais sensíveis à realidade da população, mais inclusivas e mais justas. Afinal, toda vez que se transforma conhecimento em ações concretas, todo o Brasil colhe os resultados.

 

 


Comentários