Foto: Edson Sano
A maioria das áreas abandonadas (87%) consiste em antigas plantações de eucalipto para produção de carvão vegetal.
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Um estudo pioneiro conduzido pela Embrapa e pela Universidade de Brasília ( UnB ) utilizou imagens de satélite e inteligência artificial (IA) para mapear o abandono de terras agrícolas no Cerrado brasileiro. Dados do município de Buritizeiro, no norte de Minas Gerais, mostram que mais de 13.000 hectares de terras agrícolas foram abandonados entre 2018 e 2022, o que equivale a quase 5% da área total de terras agrícolas no início desse período. Esse mapeamento detalhado representa a primeira avaliação desse tipo no bioma e pode subsidiar políticas públicas voltadas para a restauração ecológica, a contabilização de carbono e o planejamento sustentável do uso da terra.
Os estudos foram conduzidos por equipes da Embrapa Cerrados (DF), Embrapa Agricultura Digital (SP) e Embrapa Meio Ambiente (SP), além da UnB. O estudo utilizou imagens do satélite Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia ( ESA ), combinadas com técnicas de aprendizado profundo, para mapear mudanças no uso e cobertura da terra. Utilizando uma Rede Neural Totalmente Conectada (FCNN), um modelo computacional capaz de reconhecer padrões em imagens, os pesquisadores conseguiram classificar diferentes categorias: vegetação nativa, pastagens cultivadas, culturas anuais, plantações de eucalipto e, pela primeira vez, terras agrícolas abandonadas. A precisão do mapeamento foi de 94,7%, o que é considerado excelente para a classificação do uso da terra por sensoriamento remoto.
Com base nos resultados, a maioria das áreas abandonadas (87%) consiste em antigas plantações de eucalipto destinadas à produção de carvão vegetal. O município de Buritizeiro é conhecido pelas suas extensas plantações de eucalipto, bem como pela pecuária. “A região enfrenta desafios de produção, como a baixa produtividade das pastagens durante os períodos de seca e o aumento dos custos dos fertilizantes — fatores que contribuem para o abandono das terras agrícolas”, afirma Edson Sano , pesquisador da Embrapa Cerrados.
Segundo ele, com base nas imagens analisadas, os cientistas determinaram que a maioria das áreas abandonadas eram antigas plantações de eucalipto que haviam sido mal conservadas ou que se transformaram em pastagens ou matagais após a colheita da madeira. “A prevalência de áreas abandonadas em regiões de cultivo de eucalipto está ligada à diminuição da viabilidade econômica da produção de carvão vegetal devido a fatores como o aumento dos custos de logística e produção. O principal destino do carvão vegetal eram as siderúrgicas de Sete Lagoas, no estado de Minas Gerais”, explica Sano .
Segundo o pesquisador, além disso, o aumento dos preços dos fertilizantes e insumos agrícolas incentivou a descontinuação das atividades produtivas. “Embora a maior parte das terras abandonadas tenha sido identificada em áreas florestais, não foi observado abandono significativo de culturas anuais (como soja ou milho) durante o período analisado. Isso sugere que os sistemas agrícolas mais intensivos mantiveram sua produtividade ao longo do período de cinco anos analisado”, acrescenta.
Implicações para as políticas públicas
Segundo Gustavo Bayma , analista da Embrapa Meio Ambiente, os mapas gerados por essa metodologia fornecem informações espaciais detalhadas sobre o abandono de terras. Esses dados podem ser utilizados para incorporar áreas subutilizadas em estratégias nacionais de restauração ambiental e mitigação das mudanças climáticas. Tais estratégias poderiam incluir, por exemplo, a estimativa do potencial de sequestro de carbono ou a criação de corredores ecológicos de restauração no Cerrado.
“O estudo também destaca a importância de políticas que reduzam a volatilidade dos preços dos insumos agrícolas e incentivem alternativas econômicas sustentáveis para pequenas e médias propriedades rurais, visto que fatores econômicos foram identificados como um dos principais impulsionadores do abandono de pastagens na região”, afirma Bayma. Ele ressalta, contudo, que a pesquisa demonstra que o monitoramento ainda enfrenta limitações, como a necessidade de séries temporais mais longas para distinguir o abandono permanente de períodos temporários de pousio (terras deixadas em pousio por um ano ou menos).
No entanto, os resultados demonstram o potencial das tecnologias de inteligência artificial para subsidiar políticas públicas sobre restauração ambiental, planejamento do uso da terra e adaptação às mudanças climáticas no Cerrado. “A análise foi baseada em apenas duas datas de aquisição de imagens ao longo de um período de quatro anos, o que impossibilita distinguir com precisão entre o abandono permanente e as práticas de pousio temporário. Embora o uso de imagens de alta resolução e visualizações auxiliares tenha contribuído para a validação, a confirmação do abandono ainda depende, em parte, da interpretação visual e do conhecimento local”, acrescenta Édson Bolfe , pesquisador da Embrapa Agricultura Digital.
Outro desafio destacado por ele é a dificuldade de distinguir pastagens degradadas da vegetação nativa (como gramíneas e arbustos) usando apenas sensoriamento remoto, já que suas assinaturas espectrais podem ser muito semelhantes. Segundo especialistas, o estudo demonstrou que métodos de aprendizado profundo combinados com imagens de satélite podem mapear áreas agrícolas abandonadas no Cerrado com alta precisão e confiabilidade — um importante avanço metodológico para avaliar as mudanças no uso da terra em savanas tropicais. “Os resultados reforçam a necessidade de incorporar áreas abandonadas às políticas ambientais e agrícolas, visando à restauração ecológica, mitigação das mudanças climáticas e sustentabilidade rural”, afirma Bolfe.
Informações mais detalhadas sobre o estudo estão disponíveis no artigo " Inserindo terras agrícolas abandonadas na legenda dos mapas de uso e cobertura da terra do cerrado brasileiro" .
Juliana Caldas (MTb 4861/DF)Embrapa Cerrados
Cristina Tordin (MTb 28.499/SP) Embrapa Meio Ambiente


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