Medicamentos usados para controle do diabetes e popularizados para perda de peso promovem queda rápida da glicose, o que pode agravar problemas já existentes na retina e provocar alterações visuais, alerta oftalmologista
De acordo com a Dra. Camila Ventura, oftalmologista especialista em doenças da retina e do vítreo do HOPE – Hospital de Olhos de Pernambuco, essas medicações “imitam a ação de um hormônio do próprio corpo que ajuda a controlar o açúcar no sangue e também atua na saciedade”. Em termos simples, estimulam a produção de insulina quando a glicose está elevada, diminuem o apetite e retardam o esvaziamento do estômago, favorecendo tanto o controle do diabetes quanto a redução de peso.
Sobre riscos para os olhos, a médica explica que ainda não existe comprovação ampla de dano direto frequente causado por essa classe terapêutica. “O achado mais consistente é a possível piora da retinopatia diabética em pacientes que já tinham a doença, especialmente quando há redução muito rápida da glicose”, destaca. Segundo a especialista, quando o açúcar no sangue cai de forma acelerada, podem ocorrer alterações na circulação da retina, estrutura responsável por formar as imagens, o que pode agravar lesões já existentes.
Outro ponto que vem chamando atenção é a possível relação com a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NAION), condição rara que compromete o nervo óptico e pode provocar perda visual súbita. “Existem relatos e análises mostrando associação em alguns grupos, mas ainda não há confirmação de causa direta”, explica. A médica ressalta que pessoas com hipertensão, apneia do sono, doenças cardiovasculares, tabagismo ou características anatômicas específicas do nervo óptico podem precisar de acompanhamento mais cuidadoso.
Na prática clínica, as queixas mais relatadas costumam ser visão embaçada temporária, variações no grau dos óculos relacionadas à oscilação da glicemia e sensação de ressecamento. “Em geral, são manifestações transitórias e muitas vezes ligadas às mudanças metabólicas, não necessariamente a um efeito tóxico direto no olho”, esclarece.
Pacientes com diagnóstico de retinopatia precisam de atenção redobrada ao iniciar o tratamento. “Quem já apresenta alterações na retina pode ter maior risco de progressão quando há redução rápida das taxas glicêmicas”, afirma. Por isso, ela recomenda que pessoas com fatores de risco, como hipertensão, apneia do sono, doenças cardiovasculares, diabetes, tabagismo ou características anatômicas específicas do nervo óptico, procurem avaliação oftalmológica antes do início da terapia e mantenham acompanhamento mais próximo nos primeiros meses, com seguimento conjunto entre oftalmologista e endocrinologista, especialmente nos casos relacionados ao diabetes.
A perda de peso acelerada também pode trazer efeitos indiretos. “Além de possível influência na evolução da retinopatia, pode ocorrer desidratação por efeitos gastrointestinais, levando a turvação visual passageira”, diz. A médica acrescenta que o emagrecimento intenso pode reduzir gordura ao redor dos olhos, provocando aspecto de envelhecimento na região periocular.
Alguns sinais exigem atendimento imediato. “Perda súbita da visão, aumento repentino de moscas volantes, flashes luminosos, dor ocular intensa ou aparecimento de mancha escura central são situações que justificam avaliação urgente”, alerta. Qualquer mudança importante após o início das aplicações deve ser comunicada sem demora ao especialista.
Sobre o uso sem orientação, a oftalmologista é enfática: “Não iniciar ou manter essas medicações sem prescrição e acompanhamento médico”. Segundo ela, a ausência de monitorização pode atrasar o diagnóstico de complicações e aumentar a chance de problemas passarem despercebidos. “O acompanhamento multidisciplinar é fundamental para garantir segurança, especialmente em pessoas com fatores de risco”, reforça.
Embora não tenha observado aumento expressivo na procura por consultas diretamente relacionadas às canetas, a especialista percebe outra mudança no consultório. “O que vejo é um crescimento significativo no número de pacientes utilizando essa classe medicamentosa”, relata.
A principal orientação da oftalmologista é clara: informação e acompanhamento caminham juntos. “Quem tem diabetes ou outros fatores de risco deve realizar avaliação oftalmológica antes e durante o tratamento, principalmente se já houver alteração na retina. E qualquer sintoma visual novo precisa ser investigado rapidamente”, conclui a Dra. Camila Ventura, oftalmologista especialista em doenças da retina e do vítreo do HOPE – Hospital de Olhos de Pernambuco. |
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