*José Renato Nalini
A ciência reclama experimentação,
paciência e prudência. Não vive de atropelos. Se isso hoje é algo bastante
polêmico, diante da pressa em divulgar descobertas, antes de que elas sejam
objeto de adequada comprovação, não deixou de existir em tempos idos. Quando,
principalmente no Brasil, ela engatinhava.
Com razão, pois o Brasil ficou
submisso a Portugal até 1822, com o hiato a partir de 1808, quando a Corte
fugiu de Napoleão e se escondeu na Colônia. Nunca existiu Universidade no
Brasil antes do século XIX, enquanto as colonizações espanholas a possuíam
desde o século XVI.
Conta-se que o político João Coelho, pôs-se a afirmar que
comprovara a existência de vida após a morte. É que durante o verão, em Marajó,
morrem todos os caranguejos. À primeira chuva, porém, surgem caranguejos
miúdos, da noite para o dia.
Impressionado com esse fenômeno,
João Coelho foi à mídia e declarou que os caranguejos demonstravam a verdade da
revivescência dos seres, pois, mortos no ano anterior, espalhados sobre a lama
seca, retomavam a vida logo com a primeira chuva, pondo-se a correr em busca de
alimento.
Uma afirmação ingênua, que foi logo
desmentida pelo fazendeiro e estudioso Vicente Chermont de Miranda, autor de um
vocabulário da Ilha de Marajó. Com bom humor, explicou que o ardor do verão
realmente matava grande quantidade de caranguejos. Alguns, contudo, conseguiam
esconder-se na lama, em lugares mais profundos, conservando-se abrigados
durante a estação. Eram estes que, emergindo do esconderijo, às primeiras
chuvas reapareciam.
Não satisfeito, João Coelho volta
aos jornais e disso resultou uma das mais pitorescas polêmicas que se têm
travado no Brasil, entre a ciência leiga e a ignorância diplomada.
Ainda hoje, há quem sustente
afirmações esdrúxulas, sem o menor fomento da ciência, com veemência tal, que
chegam a acreditar nas tolices que propalam. Preste atenção e vejam como é duro
o embate entre a ciência-verdade e a pseudociência, sustentada pelos imbecis
que ganharam espaço nas redes sociais.
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

Comentários
Postar um comentário