“Sem aceleração dos investimentos, metas do Marco Legal podem não ser cumpridas”, afirma especialista.
Enquanto os indicadores de saneamento avançam nos grandes centros urbanos, o Brasil enfrenta um gargalo estrutural que pode comprometer as metas nacionais de universalização: a baixa cobertura em áreas rurais. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um contraste significativo entre cidade e campo. Atualmente, apenas 32% da população rural possui cobertura adequada de abastecimento de água, e o esgotamento sanitário adequado atinge 9,6% desse território.
O cenário coloca sob pressão o cumprimento da Lei 14.026/2020 (Marco Legal do Saneamento), que estabelece a meta de 99% de cobertura de água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033. Para Deise Coelho, CEO da Almerindas e engenheira com mais de quatro décadas de atuação no setor, sem uma estratégia específica para áreas de baixa densidade populacional, a universalização corre o risco de avançar nas estatísticas urbanas enquanto permanece incompleta no território nacional.
“Quando se fala em saneamento rural, o debate costuma focar apenas no investimento necessário para implantar a infraestrutura. Mas o grande desafio, muitas vezes, está na sustentabilidade da operação desses sistemas ao longo do tempo, especialmente no caso do esgotamento sanitário”, afirma Deise.
Adaptação de modelos e invisibilidade histórica
Com a autoridade de quem acompanhou as transformações do saneamento brasileiro desde a década de 80, Deise Coelho alerta que o modelo tradicional de expansão da infraestrutura falha ao tentar replicar no campo as soluções das metrópoles. “Muitas soluções falham não por deficiência técnica, mas por desconsiderarem as dinâmicas sociais, territoriais e econômicas das áreas rurais. Não se trata apenas de instalar redes ou uma fossa, mas de desenvolver soluções viáveis para realidades dispersas e historicamente invisibilizadas”, destaque.
Segundo a especialista, o déficit no campo está diretamente ligado à dificuldade de escala econômica e à dispersão das moradias, o que torna os sistemas convencionais de redes coletoras inviáveis técnica e financeiramente. Para transpor essa barreira, ela defende a diversificação tecnológica, incluindo sistemas condominiais, modelo em que pequenos grupos de casas compartilham uma rede simplificada de esgoto e uma solução de tratamento que pode ser baseada na natureza, reduzindo custos de implantação e manutenção.
“Em áreas rurais ou de baixa densidade, não é possível simplesmente replicar os modelos urbanos. As soluções precisam considerar a dispersão das moradias, a logística de manutenção, os hábitos da população e a capacidade de gestão local”, acrescenta a especialista.
“Conhecer a realidade do território antes da implantação das soluções é fundamental. Esse planejamento precisa combinar escuta qualificada das comunidades, análise técnica e uso de tecnologia e dados para compreender as especificidades locais. Sistemas que não consideram esses fatores tendem a enfrentar dificuldades de operação e acabam perdendo eficiência ao longo do tempo”, reforça.
Agenda Estratégica e Prazo Crítico
Com menos de uma década até o prazo final de 2033, a engenheira avalia que o tempo é um fator crítico e exige aprimoramentos no ambiente regulatório.
“Universalizar o saneamento no Brasil não será apenas uma questão de expandir infraestrutura, mas de garantir que os sistemas implantados sejam operáveis, sustentáveis e adequados à realidade de cada território”, afirma.
Nesse contexto, ganha relevância o desenvolvimento de soluções técnicas e institucionais específicas para áreas rurais e territórios de baixa densidade, incluindo sistemas descentralizados, planejamento territorial detalhado e modelos de gestão que considerem as características sociais, culturais e operacionais de cada região.
“O saneamento rural precisa entrar definitivamente na agenda estratégica do país. Ele é condição para o desenvolvimento regional, segurança hídrica e redução das desigualdades. Se o campo não for prioridade, não haverá universalização de fato”, conclui.
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Sobre Deise Coelho
Co-fundadora e CEO da Almerindas, com uma trajetória de mais de 40 anos no setor de saneamento e infraestrutura. Engenheira civil e especialista em saneamento pela UFPE, consolidou sua expertise em projetos de reurbanização de favelas, reassentamento e políticas públicas em diversos países.
Com experiência em projetos de infraestrutura e gestão territorial em diferentes regiões do Brasil e da América Latina, destaca que o avanço do saneamento rural dependerá da integração entre soluções técnicas, planejamento territorial e participação das comunidades locais.
Reconhecida como uma “engenheira social”, dedica sua carreira a transformar a infraestrutura em instrumento de dignidade, justiça social e desenvolvimento territorial.
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