“Sem aceleração dos investimentos, metas do Marco Legal podem não ser cumpridas”, afirma especialista.


Com mais de 40 anos no setor, CEO da empresa Almerindas, Deise Coelho, alerta que os atuais 32% de cobertura de água e 9,6% de esgotamento rural, dados divulgados pelo IBGE, reforçam o desafio de alcançar os objetivos estabelecidos para 2033. 
 

 Enquanto os indicadores de saneamento avançam nos grandes centros urbanos, o Brasil enfrenta um gargalo estrutural que pode comprometer as metas nacionais de universalização: a baixa cobertura em áreas rurais. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um contraste significativo entre cidade e campo. Atualmente, apenas 32% da população rural possui cobertura adequada de abastecimento de água, e o esgotamento sanitário adequado atinge 9,6% desse território.
 

O cenário coloca sob pressão o cumprimento da Lei 14.026/2020 (Marco Legal do Saneamento), que estabelece a meta de 99% de cobertura de água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033. Para Deise Coelho, CEO da Almerindas e engenheira com mais de quatro décadas de atuação no setor, sem uma estratégia específica para áreas de baixa densidade populacional, a universalização corre o risco de avançar nas estatísticas urbanas enquanto permanece incompleta no território nacional.
 

“Quando se fala em saneamento rural, o debate costuma focar apenas no investimento necessário para implantar a infraestrutura. Mas o grande desafio, muitas vezes, está na sustentabilidade da operação desses sistemas ao longo do tempo, especialmente no caso do esgotamento sanitário”, afirma Deise.
 

Adaptação de modelos e invisibilidade histórica
 

Com a autoridade de quem acompanhou as transformações do saneamento brasileiro desde a década de 80, Deise Coelho alerta que o modelo tradicional de expansão da infraestrutura falha ao tentar replicar no campo as soluções das metrópoles. “Muitas soluções falham não por deficiência técnica, mas por desconsiderarem as dinâmicas sociais, territoriais e econômicas das áreas rurais. Não se trata apenas de instalar redes ou uma fossa, mas de desenvolver soluções viáveis para realidades dispersas e historicamente invisibilizadas”, destaque.
 

Segundo a especialista, o déficit no campo está diretamente ligado à dificuldade de escala econômica e à dispersão das moradias, o que torna os sistemas convencionais de redes coletoras inviáveis técnica e financeiramente. Para transpor essa barreira, ela defende a diversificação tecnológica, incluindo sistemas condominiais, modelo em que pequenos grupos de casas compartilham uma rede simplificada de esgoto e uma solução de tratamento que pode ser baseada na natureza, reduzindo custos de implantação e manutenção.
 

“Em áreas rurais ou de baixa densidade, não é possível simplesmente replicar os modelos urbanos. As soluções precisam considerar a dispersão das moradias, a logística de manutenção, os hábitos da população e a capacidade de gestão local”, acrescenta a especialista.
 

“Conhecer a realidade do território antes da implantação das soluções é fundamental. Esse planejamento precisa combinar escuta qualificada das comunidades, análise técnica e uso de tecnologia e dados para compreender as especificidades locais. Sistemas que não consideram esses fatores tendem a enfrentar dificuldades de operação e acabam perdendo eficiência ao longo do tempo”, reforça.
 

Agenda Estratégica e Prazo Crítico
 

Com menos de uma década até o prazo final de 2033, a engenheira avalia que o tempo é um fator crítico e exige aprimoramentos no ambiente regulatório.
 

“Universalizar o saneamento no Brasil não será apenas uma questão de expandir infraestrutura, mas de garantir que os sistemas implantados sejam operáveis, sustentáveis e adequados à realidade de cada território”, afirma.
 

Nesse contexto, ganha relevância o desenvolvimento de soluções técnicas e institucionais específicas para áreas rurais e territórios de baixa densidade, incluindo sistemas descentralizados, planejamento territorial detalhado e modelos de gestão que considerem as características sociais, culturais e operacionais de cada região.
 

“O saneamento rural precisa entrar definitivamente na agenda estratégica do país. Ele é condição para o desenvolvimento regional, segurança hídrica e redução das desigualdades. Se o campo não for prioridade, não haverá universalização de fato”, conclui.
 

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Sobre Deise Coelho  

Co-fundadora e CEO da Almerindas, com uma trajetória de mais de 40 anos no setor de saneamento e infraestrutura. Engenheira civil e especialista em saneamento pela UFPE, consolidou sua expertise em projetos de reurbanização de favelas, reassentamento e políticas públicas em diversos países.

Com experiência em projetos de infraestrutura e gestão territorial em diferentes regiões do Brasil e da América Latina, destaca que o avanço do saneamento rural dependerá da integração entre soluções técnicas, planejamento territorial e participação das comunidades locais.

Reconhecida como uma “engenheira social”, dedica sua carreira a transformar a infraestrutura em instrumento de dignidade, justiça social e desenvolvimento territorial.

 

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